Epílogo

Parlamento de Gralhas


Tabula Rasa é um dos lugares mais desolados de todo o Vale dos Mortos, aqui vivem as sombras daqueles que jamais tiveram descanso e já não podiam mais viver como fantasmas no nosso lado. Todos aqueles que os conheciam estavam mortos. Seus assuntos inacabados perderam o sentido e eles foram condenados à eternidade vagando sem rumo pelo cemitério do Vale. Eles esqueceram quem são, mas jamais esqueceram porque estão aqui.

Eles se assustaram com a rara visão da Morte e seus dois filhos sendo trazidos a nascente do Estige pelo barqueiro. Os senhores do reino raramente eram vistos naquele lugar esquecido. E para muitos, era a primeira vez que o rosto da Morte lhes era mostrado em sua própria pessoa.

No fim da quase interminável necrópole há um grande portão de ébano e ferro, não é possível ver nada por detrás de suas barras e ninguém, a não ser a soberana do Vale, jamais pisara sob aquele chão. Nem mesmo seus filhos.

— Aqui é o fim da linha para vocês, Azrael e Tertuniel. Daqui, eu sigo sozinha, pois sua irmã não merece cortejo além de mim. Eu sou sua mãe e a mim cabe o fardo de enterrá-la.

—O que tem do outro lado?

— Nada. O puro e simples Nada.

Ela levantou sua mão e respirou pausadamente enquanto as trancas abriam-se por sua ordem. Salve a deusa dos mortos, eles gemiam. Salve a senhora do abismo, eles gritavam. Salve a senhora dos mortos, eles choravam.

Mas mantenham eternamente luto, pois um imortal acaba de morrer. Assim, eles se abriram.

Inexistência era o vazio depois dos mundos, o escuro sob os pés, o abismo sobre a cabeça, nada havia depois do portão, a não ser um grande monólito de mármore negro, que estranhamente conseguia destoar de toda escuridão.

Em dourado, nomes brilhavam em seu corpo, nomes esquecidos pelo tempo e pelo destino, aquilo era Inexistência o último resquício dos deuses que já morreram. A última lembrança dos esquecidos.

Dê-nos um nome. Dê-nos o nome do deus esquecido. Dê-nos o nome do morto e deixe que ele descanse em paz em seu esquecimento, agora que já não existe. O que é imortal, não morre, mas deixa de existir, por toda eternidade e em todos os mundos. Nós, a escuridão, exigimos um nome. — Disseram vozes distantes, dentro da escuridão.

— Ela era o corvo que sobrevoava a batalha, ela era a morte que presidia a guerra. Era a filha mais nova da morte, conseqüência de seu envolvimento com o mais profundo dos abismos. Ela era minha penitencia por matar a Harpia que guardava o poço, ela foi o meu castigo por criar o meu reino. Ela era o meu reino, e agora que está morta, caminhemos em tristeza. A terceira filha da morte está morta e seu nome era Morrigan.

 O anjo tocou o monólito de pedra e sentiu tudo que Morrigan significava se esvair em dourado, no fim, tudo que restou de sua filha e de seu desejo de poder, foi seu nome escrito naquela pedra.

Sem olhar para trás, foi embora e os portões choraram uma última vez.

— Acabou. — Disse a Morte.

— Que ela descanse em paz. — Responderam seus filhos.

Pela primeira vez, choveu no Vale.


Chovia.

Não era aquela chuva costumeira de tristeza e desilusão, não era mais disso a chuva banhando a cidade que era a alma de Pablo. Neste dia chovia excitação e felicidade, enquanto os diminutos habitantes de seu sonho percorriam felizes as ruas de nuvens e olhavam para cima, esperando pacientemente o fim. Eles estavam felizes mesmo assim.

Pablo caminhava vagarosamente em direção a sua casa, mas no fundo ainda possuía aquela vã esperança de eternidade que tem todos os jovens. Mesmo sabendo de sua morte iminente, ele achava que nunca iria morrer.

Enquanto ele caminhava, um homem brigava com a esposa e juntava algumas latas de cerveja enquanto tentava ligar o carro. Já estava na décima, quando finalmente o Fiat 2001 pegou.

Atrás de si, diminutos olhos o observavam. Aves negras de todas as épocas do mundo, aquelas que tanto fizeram historia e nunca são lembradas. Os corvos da torre de Londres, os corvinais olhos de Odin, a mulher-corvo que casou com Adão, o corvo do mundo dos sonhos, Nunca Mais e os tantos outros corvos que vieram de tão longe para assistir Pablo em sua última caminhada.

Eles observavam enquanto ele cantava. E no fundo, riam-se com suas vozes de pedras da ironia daquela canção.

“A partir deste ponto, é instintivo, até os labirintos de uma estrada, a cada lugar contém um mapa de tudo, de tudo! Evidências, na marcha de uma formiga, no pulso do oceano.” A Crow left of the murder, o corvo que restou do assassinato, da banda Incubus, tocava em sua voz inadvertidamente. Ele cantava a musica certa para o seu momento, mas não conseguia ver isso.

O homem chorava. Correndo em direção a lugar nenhum ele dirigia perigosamente. No fundo, ele queria morrer. No fundo, ele queria matar alguém... um alguém que era sua esposa.

Pablo sentiu os pelos de seu pescoço eriçarem, pela primeira vez em sua caminhada ele percebeu que estava sendo observado e tremia. Caminhou um pouco mais apressadamente, imaginando ouvir os sussurros de uma historia. Mas não entendia os fragmentos.

Naquele momento ele temeu por sua vida.

No meio da estrada, um corvo morto retorcia-se a beira da morte e isso fez o garoto parar. O corvo falava em sons pétreos, mas ele repetia apenas uma frase.  Eu contei minha historia — ele dizia. Aquilo deixou Pablo em choque.

Ele parou de cantar, olhando ao redor sem entender se aquilo era um sinal ou um mero acaso. Ele teve o ímpeto de perguntar qual era o nome daquele corvo, mas ele parou percebendo como aquilo seria demasiado tolo.

Aquilo o fez refletir sobre matar Morrigan. Aquele corvo de olhos vazados e agonizante o fez parar para perceber que talvez ele só tenha nascido para aquele momento e que tudo em sua vida o voltou para aquele milésimo de segundo. Para o momento em que ele parou no meio da rua e percebeu coisas sobre os corvos que nunca antes havia pensando

Coisas sobre ele mesmo que antes esquecera.

Um carro vinha na estrada e dobrou rapidamente a esquina. Pablo teria sido atropelado se não tivesse jogado seu corpo para trás e escapado com vida daquilo que seria um trágico acidente. Por um segundo, ele respirou aliviado e assistiu a revoada de corvos tomarem o céu.

Eles gritavam em pavorosa cadencia: Aquele é o corvo que restou do assassinato, ele nos contou sua historia e agora morrerá. E alguns gritavam ainda mais tormentosamente: Pablo, Pablo, Pablo.

O garoto caminhou perseguindo os corvos rua abaixo. Eles gritavam seu nome e repetiam sempre à mesma frase, mas na cabeça dele era como se eles falassem coisas que nunca saberia se não os seguisse.

Alguns corvos se perdiam do bando, quebravam suas asas e caiam alquebrados ao chão, gritando ainda as mesmas frases. Pablo parou e todos eles empoleiraram-se na porta de sua casa. Alguns passos o distanciavam de Miguel, uma dezena de passos e mil corvos olhando em sua direção.

Então, dessa vez numa voz melodiosa, sem aquele costumeiro clac de pedras batendo umas contras outras, eles disseram um nome e então tudo que Pablo conhecia sobre a vida mudou.

Ouvir aquele nome era como ouvir todos os sons do universo e ver a face de todos os deuses brilhando frente aos olhos. Era como sentir os sonhos de cada criatura viva no coração.  Ele sentiu-se flutuar no tempo.

O homem dirigiu o mais rápido que pode e fechou os olhos. Rezou intimamente pela paz e para que nunca mais brigasse com sua esposa de novo. Era tarde demais, entretanto. E ele não viu o rapaz a sua frente que caiu desmaiado a porta de casa. E nem viu a arvore em que bateu. Era tarde demais para qualquer arrependimento. Ele estava morto e o garoto respirando lentamente.

Pablo abriu os olhos com sofreguidão e pouco ouviu dos gritos do irmão que o via cair. Tudo que ele via era o olhar dos corvos e som cadente do Nome, naquele momento ele entendeu seu lugar no universo e tudo que o trouxera até aquele lugar através de todas as coincidências.

Ele entendeu a rota das estrelas, a ascensão e o declínio de todos os deuses deste mundo.Então, seus olhos se fecharam e ele estava morto.

              Do que havia no outro lado, só os corvos sabem.

 

O Corvo que Restou de um Assassinato


      Suas linhas eram uma estratégia de batalha, finos traços como espadas, duras, frias e mortíferas. Suas curvas, como arcos, disparavam desejos e caricias, mas eram somente uma armadilha para sua boca de dentes afiados. Ela era toda uma arma poderosa e seu hálito despertava os loucos dominadores. Sua voz era o exaltado som da tirania.
      O rapaz de veias saltadas e olheiras profundas tremia a cada toque dela. Cada parte de sua alma era corrompida pelo desejo primitivo de domínio.       Ele era um pouco de Stalin, Churchill ou Hitler, um dominador nato que aprendeu nos campos do RPG como tomar cidades e mundos. Seu jogo atual era a própria realidade, quando a deusa da guerra veio ter com ele em sua cama.
      Seus olhos exprimiam loucura, rubros de cansaço, viravam-se nas órbitas num misto de prazer e dor que homem algum jamais sentira. Temia a morte nos braços da Guerra, mas não podia conter o ímpeto de desejar ter o mundo inteiro a seus pés, o mesmo mundo que o rejeitou a vida toda.
      — Em breve, meu pequeno, você terá tudo que deseja. Eu abrirei as portas do inferno e criarei meu próprio mundo dos mortos, aqui em cima. Eu serei a rainha imortal de tudo que existe... e você se tornará o meu primeiro rei.
      —Minha rainha... — Debilitado ele a encarava com fome, mas não a fome que um homem sente ao ver uma mulher. A olhava como se ela fosse um reino a conquistar, um continente desconhecido e cheio de riquezas, um universo outrora intangível. Seus olhos queimavam como se ela fosse o próprio mundo que oferecia e em sua febre ele delirava, mesmo quase morto pelo toque dela. — Porque não já começamos?
      —Ainda não estamos na hora correta, apenas na sexta hora desta noite, poderemos abrir os portais que ligam os dois mundos. Mas não se preocupe, temos muito que fazer juntos até lá.
      David tremia de excitação... e de tipo de terror tão profundo, que apenas um homem ao chegar no reino mais abismal de Hades poderia conhecer.

      Reza a lenda, que ao fechar a Caixa de Pandora, Epimeteu impedira que o maior de todos os males se libertasse: o de conhecer o dia da própria morte. Para Pablo, a caixa abrira-se completamente e o terrível dom da antecipação chegara-lhe aos ouvidos.
      — Como é morrer?
      —Eu não sei bem, só minha mãe conhece todos os segredos dela. Geralmente, uns segundos antes de morrer vocês entendem toda a conexão do universo com suas vidas, por um ínfimo segundo vocês possuem todo o conhecimento que até os anjos desejam, mas então vocês morrem e tudo deixa de fazer sentido.
      — Eu não quero morrer, não quero deixar meu irmão sozinho. Porque eu? Justo agora? Minha vida toda sempre foi cheia de tragédias e justamente quando as coisas começam a melhorar, eu morro. Isso não é justo. Não é justo que meu irmão fique sozinho.
      — Porque era sua hora, mas você ao menos a está aproveitando. Não se preocupe com seu irmão, eu cuido dele. Miguel ficará em boas mãos.
      — Você não vai ficar comigo depois que eu...?
Azrael sorriu, mas por detrás de seu sorriso havia uma tristeza que se refletia na chuva, no vento e em cada coisa viva ao seu redor. O mundo inteiro era apenas um mero espelho de sua dor.
      — Eu virei te buscar. Eu prometo.
      — E depois?
      —Depois você segue seu caminho e eu não sei se te verei de novo. Você tem uma hora pra se despedir do seu irmão e pegar o que precisar, em duas horas a noite estará pronta para abrir sua porta.
      — Espere. — Disse ele já saindo em direção a casa. — Porque você me levou para o funeral da sua cunhada? Você poderia ter falado com seu irmão sem mim.
      — Porque eu queria que você visse o mundo em que estava entrando. Você sabe que se desistir, ainda vai viver. Eu queria que você tivesse a chance de desistir, se você me entende.
Pablo apenas sorriu e entrou. Azrael não sabia se de fato ele voltaria, ou se simplesmente não conseguira dizer adeus. Esperar sozinho no carro era a única coisa que ele podia fazer, afinal, ele estava pedindo para um garoto que ele mal conhecia deixar a família e correr em direção a uma missão suicida. Ele estava apenas pedindo pra alguém destruir um anjo.
      — Pronto. Eu trouxe a faca que sua mãe me deu e uns casacos. Deve estar fazendo frio no sul, mas acho que isso é tudo que eu vou precisar.
      A faca de vidro cintilava, pronta para matar qualquer um que ousasse chegar perto de seu afiado gume. Era uma magnífica arma, mas que fazia Azrael tremer em repulsa.
      —Cuidado. Eu não sei por que minha mãe te deu essa faca, mas ela é realmente perigosa. Facas como essas mataram outros deuses antes, destruíram civilizações, vidas e romperam o equilíbrio. Então, não a segure como se ela fosse a coisa mais segura do mundo.

      Nu, o jovem David tremia de frio no centro do circulo de sangue. Sua pele branca reluzia sob a luz do crepúsculo e contrastava com o vermelho sangüíneo que lhe escapava por entre as veias do pulso. Ele estava morrendo e sua morte romperia as portas entre os dois mundos.
Girando em sentido horário, ele reverenciava os cinco símbolos da morte e a cada um repetia os dizeres que aprendera de Morrigan. Para ele, eram apenas sons vocálicos inexpressivos, mas ela entendia bem a antiga língua da Suméria.
      — Faca que corta os fios da vida, saúdo-te minha fiel amiga. Corte-me com seu afiado gume e lança-me ao negrume. Diante da escuridão, eu volto dos mortos.ele disse ao primeiro símbolo.Ampulheta que marca as horas dessa existência sofrida, pare de contar os segundos da minha vida, pois empresto os meus anos aos finados, que se fundam novamente os ossos quebrados. Diante da escuridão, eu chamo os mortos. ao segundo.Cinzas de um coração partido, voem no vento e se tornem o arauto da morte, pois ao recitar o nome da trindade do destino, eu dito agora a minha sorte, sou Clotho, e teço, sou Laquesis, e sorteio, sou Átropo e corto o fio que me liga a esse mundo. Diante da escuridão, eu morro na casa dos mortos. — disse perante as cinzas do coração de sua mãe.Romã, fruta que cresce nos bosques do murmúrio, eu banqueteio juntos aos arautos do mau augúrio, me faça um deles, me abra os portões, pois agora eu clamo sob os nomes anciões. Yaveh, Izrail e Lúcifer.  Diante da escuridão, eu como com os mortos e me torno um deles. ao terceiro.Ankh, símbolo da vida eterna e da ressurreição, seja nossa luz e nosso guia, como os deuses faraônicos rezaram diante de vós um dia: traga-nos de volta da escuridão. Diante da escuridão, eu guio os mortos.
      Então, após virar-se aos quatro pontos cardeais, já a beira a morte, ele tomou a faca que havia sido o primeiro símbolo e disse as palavras finais na língua mais antiga dos homens.
      — Alma humana, sopro divino da mais elevada existência, chave dos reinos, eu a entrego nas mãos da filha do abismo e da morte, daquela quem os anjos chamam Morrigan, o corvo. E que de novo, aqueles que se forram caminhem pela terra. Diante da escuridão, eu abro a porta e me liberto. — E cortou sua própria garganta em agonia.
      Morrigan ria descontroladamente vendo que seu pupilo conseguira sacrificar sua própria vida, para ter o que desejava. Ela havia esperado uma era inteira, antes que pudesse evocar o seu alto poder. Era chegado o seu momento e ela finalmente seria a herdeira de sua mãe. Ela abriu os braços e libertou sua verdadeira imagem: um assassinato de corvos, voando uns sobre os outros para comer a carne de David, o bando brigava pelos olhos, uma iguaria para esses animais, quando Azrael e Pablo chegaram. Em suas vozes pétreas eles cantavam uma desconhecida canção...
      Um de nós busca a carcaça e dois outros conduzem o deus caolho, uma trinca de corvos é uma deusa e em sua justeza, o homem nos chama assassinato, são muitos de nós aqui nesse dia e para aqueles que perderam na guerra o nato juízo, nós os conduzimos à morte, mas nunca ao paraíso.
      Os corvos desvaneceram em nevoa, entrando pelas frestas do assoalho e abrindo as portas que trancam a escuridão por debaixo da terra. O ranger dos portões telúricos assemelhavam-se aos gemidos dos enfermos e ao último suspiro daqueles que sofrem dores de metástase. A marcha dos mortos era de uma cadencia fúnebre, rítmica como um coração moribundo, eles subiam por uma escada de mármore negro que se fez ao redor do circulo.
      — Rápido, chame-a pelo nome. — Gritou Azrael para Pablo. — Você precisa invocar o verdadeiro nome dela. Seu nome está na canção, é o coletivo de corvos, o nome que os homens lhe dão.
      — Aqui neste momento, pelo vidro tártaro em minha mão. Eu te invoco, Assassinato.
Do que restava na nevoa, ela reapareceu. Seus olhos negros brilharam faiscantes e sorridentes, ela sabia que nada poderia detê-la agora. Apenas sua morte traria os mortos de volta ao tumulo e um mortal jamais conseguiria mata-la.
      — O que você acha que está fazendo? Me invocar na minha casa e apontar uma faca para mim... — Morrigan sorriu como quem brinca com uma criança —       Você é tolo se pensa que vai me deter, mortal. Muitos tentaram me matar, mas ninguém é capaz de destruir a guerra. Você é só um garoto tolo. Como acha que vai me parar sozinho?
      De sua clavícula ela arrancou um machado de guerra e lançou-se contra o garoto como um cavalo em disparada. Pablo desviou debilmente como pode, mas ele percebia que por hora, Morrigan estava apenas brincando com ele. Em vão, ele tentou estocar sua faca no peito dela, mas ela desviava sua mão com golpes da parte lisa do machado.
      A marcha dos mortos continuava cadenciadamente, enquanto os gritos de lamento davam lugar a gritos de euforia, ainda mais assustadores que os primeiros, ossos rangiam misturando-se ao som de pele se desprendendo, um cheiro nauseabundo vertia do buraco no piso, dando idéia das coisas putrefatas que escapariam por ali.
      Azrael mantinha-se parado na frente do buraco, pronto a enfrentar quaisquer criaturas que porventura chegassem ao topo, mas sua atenção estava dividida entre seu posto e a luta que Pablo travava contra sua irmã, o mortal estava perdendo e se mostrava cada vez mais cansado.
Morrigan, no entanto, parecia fatigada e sua dança com o garoto já dava sinais de perder a graça, sem mais delongas, ela deu um golpe que o fez soltar a faca e lançou-se sobre ele, prendendo o cabo do machado em sua garganta, e o erguendo contra a parede alguns centímetros do chão.
      — Como você está se sentindo?Cansado, não? Azrael não pode me tocar, porque não se pode derramar sangue de família sem pagar as conseqüências, sem subverter o nosso mundo em sangue e ferro. Você está preparado para morrer em dor e sofrimento? Preparado para se afogar em seu próprio sangue? — Ela perguntou em tom de escárnio. Seus olhos corvinais eram ainda mais amedrontadores de perto, mas estranhamente Pablo sentia-se calmo, até mesmo atrevido o suficiente para respondê-la.
      — Eu sei quando eu vou morrer e não vai ser assim. E não hoje. — Disse cuspindo sangue na face de sua inimiga, sufocando em agonia, mas confiando em seu amado.
      — E quem irá te salvar? Azrael não pode se intrometer, porque senão eu quebro o seu pescoçinho e se ele me matar, ele destrói tudo aquilo que ele mais preza, porque a Lei subverterá tudo em Abismo. Nem mesmo aquele que te deu a faca pode te salvar, agora. Eu serei a herdeira do trono da morte!
      Azrael observava descrente sua irmã, o que ela estava dizendo parecia ainda mais insano do que todo seu plano. Ela não poderia ser herdeira de nada, Izrail estava viva e reinava soberana no Vale das Sombras.
      — Você não pode se tornar a herdeira do trono de nossa mãe, Morrigan. Ela ainda está viva. Lembra? — ele disse, antevendo a resposta de sua irmã.
      — Aquele mortal insolente que ela colocou no lugar dela não é minha mãe! Ele pode ter todos os poderes dela, mas pelo Estige! Pelo Abismo! Ele não tem o direito de se sentar no trono dela e coabitar conosco. Felipe Casemiro não é um de nós!

      Do buraco um cântico elevou-se acima da marcha dos mortos. Uma canção de cores púrpuras e negras, uma canção de fogo, ferro, lágrimas e sussurros que flutuava em nuvens densas, como a chuva que se desprende da tristeza de um oráculo. E, ao lado de Azrael, Felipe Casemiro surgiu, sorrindo com o maior dos escárnios perante aquela que evocava seu nome pelo Estige e pelo Abismo.
      —Então eu não sou a própria morte? Eu não sou da família e, portanto eu posso derramar seu sangue, Morrigan. Foi você mesma que acaba de dizer isso perante os deuses mais escuros. Agora, você descobrir que não é tão fácil assim roubar o meu trono. — Com um aceno ele lançou o machado dela ao outro lado da sala e deu dois passos em sua direção, antes que a mesma se lançasse contra ele e parasse a sua frente.
      — Se você pudesse me matar, já teria feito. Apesar de suas palavras, minhas palavras não mudam o fato de que você teme a Lei, como todos nós. E se me matar, arriscará todo o seu mundo. Você não tem coragem de mover um músculo contra mim. Afinal, se o fizer, você também estará morto.
      — Eu não preciso mover nenhum músculo contra você, filha. Tudo que eu preciso fazer é dizer uma palavra e então você estará em Inexistência e seu nome será esquecido para sempre.
      —Você arriscaria mesmo todo o Vale das Sombras, por minha causa? Então diga essa palavra tão assustadora.
      — Vire-se. — E ela se virou.
      A faca enfiou-se inteiramente no peito de Morrigan, e nem ao menos a mais vaga esperança de que o mundo fosse destruído com sua morte lhe restou. Não fora Felipe que a matara, mas Pablo que segurava firmemente a faca que perfurou o seu coração sombrio.
      — Adeus, desgraçada. — Disse a Morte. Morrigan fechou seus olhos e se dispersou em corvos que explodiram em areia negra, unindo-se ao sangue no chão.
       Os ventos anunciavam que a filha mais nova da morte estava morta, enquanto um último de seus corvos empoleirou-se no ombro de Felipe e se desfez.
      A marcha cadenciada dos mortos cessou, escandalizada. Aqueles que ainda tinham olhos voltaram-se a própria Morte e tremeram. Os olhos de Felipe cintilavam azuis celestes, mais fantasmagóricos do que costumavam ser. Ele soprou como quem sopra uma vela sem importância.
      E como os corvos, os mortos se foram.

 

Cinzas Funéreas e outras forças esquecidas

Cinzas Funéreas

e outras sombras esquecidas

A alma de Pablo era como uma cidade na ausência de um regente: caótica e a beira da insanidade. Sentado na varanda, ele esperou pelo anjo que dera vida ao seu irmão. Esperou até suas lembranças se tornarem parte de um sonho e até mesmo ele questionar se de fato aquilo havia acontecido.

Havia.

Apesar do verão inteiro ter passado e as últimas folhas do outono estarem prestes a cair, para Morrigan era como se apenas um ou dois minutos houvessem transcorrido. Para Azrael, o tempo era um mero detalhe que ele poderia ignorar, mas a distancia que deveria manter do rapaz por quem se apaixonara não era ignorável. Por isso, somente quando as duas últimas folhas do outono caíram, Azrael subiu novamente os degraus que levavam a porta de Pablo.

As últimas folhas de outono caíram e, no inicio do inverno, dois dos filhos da morte começaram sua guerra. Nela, os primeiros bombardeios vieram na forma de duras batidas na porta. Miguel atendeu.

— Você... — Disse ele ao derrapar-se com o anjo a sua porta. — Eu sonhei com você.

— Espero que tenha sido um bom sonho.

Não havia sido. Miguel caia na escuridão enquanto todas as suas lembranças passavam lentamente por ele. Fora um dos piores pesadelos de sua vida, pelo menos até uma voz o chamar para longe do abismo e ele abrir os olhos. Agora, ele percebia de quem era a voz. No fundo dos seus ossos, ele sabia quem era o rapaz a sua porta.

— Eu cheguei a pensar que Miguel estava certo e de que tudo fora apenas um sonho. Az... — Pablo se encontrava atrás do irmão, quase tão estupefato quanto ele, mas por detrás de sua expressão surpresa escondiam-se todos os fogos de ano novo.

— Arrume-se, nós vamos a um funeral. — disse Azrael, frio como as pedras tumulares.

— Funeral, de quem?

— Da única pessoa que meu irmão amou em milhares de anos.

 

Havia duas pessoas no salão de ébano e mármore. Uma possuía longos cabelos brancos e uma face que demonstrava ter sido bela enquanto jovem, suas pálpebras fechadas escondiam belos olhos castanhos arredondados e sua boca sorria como se conhecesse um segredo sobre a vida. Ela conhecia vários, fora casada com um dos filhos da morte por cinqüenta anos... e agora estava morta.

O rapaz ao seu lado tinha olhos prateados como a luz da lua minguando e dotados de uma profundidade tão singular que olha-los era como fitar o céu a noite, com apenas a lua brilhando regia em sua abobada.

Seus lábios formavam um desenho de tristeza, como se sempre estivessem dando beijos de adeus e sua face era como se ele sempre estivesse de coração partido, mas era bela como se tocada pela luz de algo acima de sois e cometas, mesclada com a escuridão dos bosques mais antigos e fechados. Vê-lo era como olhar para o quadro de um talentoso artista que morrera jovem e deixara apenas uma obra no mundo, aquela. Vê-lo era como deseja-lo e saber que seu próximo beijo seria o último.

O rapaz que aparentava ter não mais de dezesseis anos e que facilmente seria confundido com o filho mais novo daquela mulher, fora seu marido e teria dado toda a eternidade a qual ele estava destinado para morrer naquele momento. Mas sua mãe jamais o levaria e Tertuniel estava fadado a continuar vivendo sem uma parte de si.

— Você deveria me levar, mãe. — A Morte fora a primeira a chegar ao funeral, caminhando reticente temendo enfrentar o próprio filho. Era duplamente difícil para ela.

— Não. Você jamais terá direito a morrer e sabe disso. Você é inteira existência e quando fechar os olhos será para deixar de existir, completamente. Eu não posso levá-lo porque simplesmente você não pode ir aonde ela vai. Você sabe disso tão bem e até melhor do que eu. — Ela olhava o filho como se conseguisse sentir toda a tristeza de seu luto em sua própria respiração. Trajava um longo vestido negro que se confundia com seu cabelo até os olhos e naquela hora, vê-la em todo aquele pesar era como cair num poço profundo e jamais sair de lá.

— Se não como minha mãe, como a própria morte. Que seja por vingança então, como Felipe você é as duas coisas, não? Ainda existe uma gota de humanidade por trás desse coração de ferro? — Agora, Morte se mostrava como um rapaz de traços delicados e ofídicos olhos verdes profundamente amargurados pelo tempo. — Você por acaso esqueceu quem é, Felipe? Você por acaso esqueceu o que eu fiz?

— Nós vamos nos ver de novo, Tertuniel. Só você e eu, sem que eu seja também sua mãe e ai, somente ai, eu terei minha vingança e você o seu desejo. Isso é uma promessa de oráculo. — Disse Felipe antes de desvanecer e voltar a ter a aparência original com que chegara ali. Novamente ele se mostrava como a impassível morte.

Seguido a ela vieram seus vassalos e seus muitos mensageiros, tristes como se fosse um parente seu no caixão. Ankou, que viera buscá-la era o que se mostrava mais perturbado, emanando melancolia de seus olhos negros como o fim do universo.

Os penúltimos a chegar foram Pablo e Azrael, adiantados apenas o suficiente para se deixarem olhar para trás e se surpreender com a última convidada a comparecer ao salão.

— É estranho que alguém morra antes de uma guerra começar e que os rivais se encontrem em paz, antes de tentarem se matar. Não é irmão? — Morrigan falava cheia de si, como um senhor que ganha o trono após uma longa batalha por um reino. — Eu entendo bem disso, afinal, guerras são a minha especialidade.

— Cuidado irmã, você permanece tão cheia de si que parece ter esquecido de como se portar em um funeral. Ah, espere, havia me esquecido de que corvos comem os mortos. Você pode entender de guerras e morte, mas não entende nada de luto ou rituais. Se continuar com esse ar de superioridade e desdém, vai acabar fazendo nosso irmão tê-la como sua inimiga. E você não vai querer Tertuniel como inimigo, ele é o desejo e você deseja muito mais do que pode ter.

Morrigan tinha olhos de corvo, profundos e negros. Afiado como ferro meteórico, seu olhar era penetrante como uma dúzia de espadas a dilacerar a carne. Encara-la era como morrer na guerra.

Seus cabelos igualmente negros estavam presos num rabo de cavalo, mas seu brilho lembrava milhares de agulhas e seu toque sobre o ombro dela deixava um fino rastro de sangue que logo se esvaia em sua tenra carne imortal, sua pele branca era gelada como aço, mas seus seios eram quentes como um par de forjas e seu coração batia sob o som da bigorna e martelo.

Seu rosto era serio como uma estratégia, mas possuía uma beleza imperativa que lhe dava ares de rainha, general e papisa, mas sem súditos, soldados ou cânticos seu rosto lhe dava uma aparência faminta e desejosa. Seu semblante era insaciável como os soldados em terra estrangeira e sua expressão gananciosa como os conquistadores da América.

Sua voz era como o som de bombas atômicas distantes, capazes de ofuscar os discursos de Stalin, Churchil ou Hittler; seus lábios, finos como navalhas a cortar gargantas, intensamente vermelhos como o sangue dos inocentes e culpados mortos na penumbra em busca da glória.  Estavam sempre contraídos em expressão séria e raramente sorriam, mas eram capazes de convencer até mesmo a alma mais pacifica a matar seus irmãos. Ela raramente sorri, mas quando o faz impérios caem,  pessoas morrem e famílias desmoronam. Seu sorriso era morte e ruína.

 

Um piano tocava embora não pudesse ser visto e enlutados choravam diante da morte. A chuva caia sonoramente em meio a gritos de desespero, enquanto os violinos anunciavam a triste partida de uma pessoa amada. Ao longe alguém canta uma canção de dor e desespero, bela como o por do sol, mas triste como as piores lembranças de uma vida.

Ouviam-se todas essas coisas, mas nenhuma delas de fato ocorria ali. Eram apenas lembranças de todos os funerais que existiram e que ainda iriam existir. Todos começaram a cantar algo numa língua que há muito foi esquecida pelos homens e pelos deuses, uma das três coisas que apenas a morte se lembra.

Era somente uma canção fúnebre em uma língua morta, mas Pablo não pode evitar fechar os olhos para contemplá-la e derramar uma lágrima solitária em luto, enquanto mergulhava na tristeza de todos os funerais da história.

A lágrima descia junto a musica, suave e refletindo todo o pesar de todas as pessoas que perderam alguém. E enquanto a gota precipitava-se no espaço vazio ao encontro do chão, a musica deu lugar a um suave sopro morno que cheirava a brisa e especiarias.

Todos os outros convidados haviam ido embora quando o jovem se permitiu abrir os olhos ao final da musica. Apenas ele, a Morte e seus três filhos observavam o caixão se consumir em chamas verdes e violáceas enquanto o grande salão era tomado pelo aroma de incensos e especiarias, apenas o quinteto observou a fumaça se mesclar ao fogo e formar uma mulher.

Seus traços eram joviais e sutis, desenhado pelas mãos de fadas do açúcar, talvez por isso seus castanhos olhos arredondados se mostravam doces e afáveis, ela lançou um sorriso ao seu marido e lhe tocou a mão.

— Tertuniel, o que dizem as estrelas? — ela perguntou, relembrando o passado.

— Elas dizem que eu te amo e irei ao seu encontro em breve.

— Elas mentem, vice me ama, mas não pode vir ao meu encontro. Você é um anjo, não tem alma e essa é a última vez que nos veremos. — ela sorriu tristemente. — Valeu a pena viver comigo?

— Cada dia com você valeu uma era da minha vida. Adeus.

— Adeus. — Ela disse beijando-lhe o rosto. E então se virou para Pablo e o encarou com um profundo pesar. — Você é tão jovem, é uma pena que vá morrer tão cedo. Espero que pra você valha a pena.

Num minuto ela estava lá e no outro era como se nunca tivesse estado em lugar algum.

 

Morrigan se permitiu um sorriso sombrio e triunfante. Sempre tivera repulsa da mulher mortal que seu irmão tomara como esposa, mas em morte ela lhe dera uma noticia que muito lhe alegrara: o rapaz morreria. Ela logo se viu o matando e conquistando o mundo depois que a guerra tivesse tido vencida.

— Está vendo irmão? — Ela disse. — Seu “guerreiro” vai morrer e ninguém precisa dizer quem o matará. Você perderá a guerra e eu tomarei o mundo que me pertence com sangue, ferro, fogo e lágrimas. Suas lágrimas desejosas de esperança. Lágrimas fúteis e sutis, a espera de algo que nunca acontecerá.

— Se você espera continuar com essa loucura, eu não terei outra escolha a não ser matá-la! Como você pode achar que pode controlar o mundo, Morrigan? Corvos não constroem reinos, tudo que eles fazem é comer olhos e cadáveres e no fim, morrem e são devorados uns pelos outros. O que você pretende fazer é criar um reino de ossos e sangue!

— O que eu pretendo, é matar você irmão e fazer da terra o meu próprio reino dos mortos, já que nossa mãe, ao adormecer, deu um jeitinho de continuar entre nós no corpo desse daí. Eu quero tudo, irmão. Tudo.

 

O semblante de Tertuniel era sombrio e perigoso como às florestas do vale da morte, mas era a raiva demoníaca que mais lhe saltava à face. Seu olhar prateado ganhava tons púrpuros e todo seu corpo vertia o calor de mil campos infernais, ele era inteiro uma forja na construção de uma espada. Ele era inteiro Hefesto construindo o apocalipse no monte Etna.

— Minha esposa acaba de morrer e vocês dois se esquadrinham em cima de um reino que não nos pertence! Eu quero ambos fora daqui agora, ou... — sua fala foi interrompida pelo frio da espada de Morrigan em sua garganta, mas nem mesmo o aço era capaz de conter toda fúria do desejo. — eu mato os dois. — disse pausadamente numa ameaça velada.

O silencio imperou na sala por alguns segundos, o suficiente para que todos se lembrassem da paz que deveria haver durante um funeral. Com seu olhar perdido em lembranças vazias, a mãe dos três presentes mandou sua filha mais nova embora.

— Se algum dos três quebrar a Paz Funérea, eu mesma os levarei pessoalmente a Inexistência. E então, nunca mais eu ouvirei Desejo, Ilusão ou Guerra brigando num funeral. Ninguém deve levantar a espada durante um enterro, esta é a nossa principal lei. Morrigan, então eu lhe peço que se retire, antes que eu mesma tenha que lhe retirar.

Nem mesmo Guerra objetou uma ordem de sua mãe, apesar uma grande ofensa ter ficado em sua garganta, havia coisas que nem mesmo ela poderia enfrentar, não ainda.

— Quanto a você, Pablo, eu já lhe disse o que perguntar.

 

Árvores, céu, pássaros, vento, pessoas. Nada tinha forma ou significado no caminho para casa. A pergunta ficara entalada em sua garganta sem que Pablo tivesse a mínima coragem para fazê-la, mas no fundo algo em sua alma gritava para que ele a fizesse.

Mas somente sua casa, sua cama e algumas horas junto do anjo que o colocara nesta historia o fizeram ter a coragem necessária para que ele conseguisse juntar as quatro palavras que mudariam sua forma de ver as coisas e toda sua vida.

— Como eu vou morrer?

 

Corações partidos e deuses mortos
entre outras ilusões quebradas

 

     “Ele tem no máximo dois ou três dias de vida, eu sinto muito”  Essa frase repetia-se melancolicamente nos ouvidos de Pablo cada vez que ele observava o semblante do irmão.
     Miguel parecia estar dormindo, respirando levemente fazendo seu peito magro subir e descer em uma angustiante rotina. Era um garoto bonito com seus cabelos loiros encaracolados e sua macia pele branca, o queixo forte lembrava o do irmão, mas seu rosto possuía traços mais refinados, mais femininos de maneira a parecer o mais frágil dos garotos de 17 anos – era, estava morrendo.
Desespero era um eufemismo a quem pudesse ler o espírito de Pablo e nem mesmo desolação descreveria o completo estado que se escondia por trás daqueles olhos calmos e compreensivos. Seu estado era como o estado de Sodoma e Gomorra depois da total aniquilação: apenas um fantasma cinéreo num deserto gélido no auge do inverno nuclear.
     Talvez por isso sua alma não fosse capaz de acender as verdes luzes da esperança ou o rubro brilho da ira desmedida contra o destino. Toda a sua mente era um completo silencio sideral e pela falta de apelos e lágrimas nenhum apelo chegou aos seres iluminados e nenhuma ajuda veio.
     Por isso, ele pode ouvir o som dos carros chegando e os passos dos irmãos Shinigami. O ruído áspero de quando eles subiram o batente da porta e a atravessam ao mesmo tempo não o fez desviar o olhar da respiração efêmera de Miguel.
Sua apatia era tamanha que nem mesmo quando as mãos dos gêmeos arautos da morte tocaram seus ombros em condolência ele os olhou, mas agora seus ouvidos eram capazes de distinguir o som da areia escapando pelas beiradas da ampulheta que marcava o tempo de vida de seu irmão.
     Ansatu, olhou a irmã com seus olhos negros como os rios do inferno e ela lhe sorriu triste, como os sorrisos de condescendência dos funerais. Estava na hora e eles deram o primeiro passo. Foi a primeira vez que Pablo desviou o olhar.
O estranho do lado de fora conseguia sentir cada gota de chuva individualmente caindo em seu corpo e embora seus passos fossem lentos e controlados, ele alcançaria quarto de Miguel antes que o segundo passo dos gêmeos chegasse ao chão, o tempo não era o mesmo para ele.
Ele abriu a porta, embora esta estivesse trancada, atravessou a sala e subiu as escadas percebendo as moléculas de poeira se desprendendo do chão. Embora não pudesse ver o olhar de dor, sofrimento e suplica que Pablo lançou aos gêmeos, ele podia senti-lo em nuances imperceptíveis até mesmo para os dois arautos, afinal ele era o filho mais velho da morte, seu herdeiro.
 Quando o segundo passo dos irmãos finalmente chegou ao chão, eles se viraram ao mesmo tempo perturbados, assustados, mas secretamente satisfeitos com o desenrolar dos fatos. Pablo, apesar de morto por dentro, não era capaz de perceber isso.
     — Vão — disse-lhes em sua própria língua. — Não é hora de vocês aqui, ainda.
Pablo virou-se ao perceber a ausência dos gêmeos e notar o jovem parado em frente a porta. Sua boca moveu-se em curta indagação, mas ele não conseguiu formular palavra alguma diante do ser a sua frente.
O que ele viu não pode ser traduzido em palavras. O filho da morte era a coisa mais bela que ele já vira, inumano, porém incrivelmente atraente. Seus olhos acinzentados como nuvens de chuvas em um funeral, sua pele branca como o mármore das lapides antigas e sua boca vermelha como o sangue de um assassinado eram uma descrição exata da palavra perfeição. Ele era toda a beleza na dor e no sofrimento encarnados num corpo humano.
     — Eu sou Azrael. — falou o estranho com uma voz que traduzia o silencio do luto. — Posso ajudar seu irmão, se você quiser.
Pablo queria.
     — Porque você faria isso? — Disse enquanto via Azrael sentasse a sua frente na cama.
     — Porque como você eu tenho irmãos e não possuo outra família. Minha mãe dorme há muito e apesar de eu perceber muito dela em seu substituto, ele ainda não é ela inteira. E principalmente, eu tenho dois irmãos, como você, eu faria tudo por eles e estou ajudando você pela vida da minha irmã mais nova.
— Ela também está doente? — Perguntou Pablo quando percebeu a estupidez de sua pergunta. — Quero dizer... Ela está morrendo e você quer salvar a vida dela?
     — Eu quero matá-la. — a expressão de choque no rosto de Pablo o fez rir por um momento, ela esquecia de como a morte era mal vista pelos mortais. — Minha irmã são três mulheres e ela é completamente instável, não é como se ela se ela tivesse algum transtorno de personalidade, ela é totalmente instável, seu corpo, sua personalidade, sua essência, tudo nela é inconstante como a vida humana. Talvez por isso ela tenha uma forte inclinação para a guerra.
     — Mas porque você quer matá-la e porque meu irmão tem a ver com isso?
     —Ela é a própria guerra. De vez em quando ela escolhe alguém cujo principal desejo é o poder. Ela gosta de caras assim e dá a eles a chance, a idéia e a força de concretizar seus desejos de guerra.  Dessa vez, ela vai passar do limite e usar o seu dom. Ela finalmente achou alguém sádico o suficiente para usá-lo, de novo.
     — Dom?
     — Minha mãe tem três filhos e cada um de nós tem , entre outros poderes, o dom de poder realizar algo para um humano, por um certo preço. A cada mil anos, eu posso conceder vida a alguém que esteja morrendo, contanto que alguém que ame essa pessoa esteja disposto a me dar o desejo que torna a vida possível. A qualquer hora que deseje, meu irmão Tertuniel pode, por um beijo, conceder um desejo de amor, apesar de ele sempre subverter isso em tragédia e minha irmã caçula, Morrigan, pode a cada era levantar o exercito daqueles que morreram em batalha ou desejosos de vingança e entrega-lo na mão de um general, de alguém louco o suficiente para morrer em agonia e ser seu amante enquanto o exercito durar. Ele sentirá toda a dor, todo o sofrimento, toda a agonia das guerras a cada vez que a beijar, mas ainda assim ele terá em mãos um poder inimaginável para um mortal. Eu vi isso acontecer no Egito, na era passada, e não havia tantos mortos quanto hoje naquela época. Foi horrível.
     — E porque eu? Porque você me escolheu?
     — Porque você aceitaria e porque eu sei que você conseguirá. Além disso, eu não gostaria de perder a oportunidade de provar do seu beijo antes que seu coração pare de bater.  Eu quero sua alma e você me dará em troca da vida de seu irmão, estou certo?
Azrael estava, mas algo dentro do coração de Pablo relutava em aceitar. Um pouco, porque sua alma relutava em ter esperança, em parte porque ele não sabia se conseguiria tocar a criatura sem ser sugada pelo campo atrativo dela, mas principalmente, ele não conseguia admitir para si mesmo que era justamente isso que ele queria. Tomar o anjo em sua cama e fazer o irmão levantar-se de sua cova iminente.
     — Você está certo. — e antes que pudesse dizer outra palavra estava em sua cama, sob os fortes braços do filho da Morte.
Sua alma era como uma cidade em ruínas. Devastado pela perda de tudo o que mais amava. Sem luzes, numa eterna escuridão profana, sua alma era o inverno nuclear após a guerra. Silêncio, radioatividade e morte num cenário cinza. Mas aos poucos o tempo mudou sob o corpo de Azrael.
     As mãos do amante separaram as nuvens enquanto rasgavam roupas em busca do pálido corpo de Pablo que correspondia freneticamente aos toques. De alguma forma, seus beijos limparam a poeira dos prédios que outrora existiam. Uma mordida e houve luz de um sol esverdeado de esperança. Um arrepio e de alguma forma as coisas voltaram a construírem-se. Ele sentiu a mão puxar o seu cabelo gentilmente enquanto algo úmido e quente trazia dor e prazer ao meio de suas pernas. Em movimentos rítmicos seu mundo passou de um deserto gélido a um projeto de cidade. Uma estocada e os prédios um a um foram construídos, outra e as praças mostravam-se verdes de novo e assim sucessivamente até a cidade conhecer uma chuva tão grande que não pode conter-se em sua alma e derramou-se pelo membro rijo de Pablo sob os lençóis. Ele revirou os olhos em êxtase e por um segundo pode vislumbrar a opulência de sua alma que agora era um império. E no meio de uma praça esverdeada, estava seu irmão correndo. Vivo, feliz e radiante. Contemplando a total satisfação e completude de sua alma, ele adormeceu em felicidade.

     Seus passos são como o andar de um espírito efusivo, desenhando no chão e no ar a linha que fazem seus pés, porém seu caminhar é carregado de pesar, tristeza e luto. Seus olhos brilham verdes como a esperança e a inveja e seu olhar é como um último relâmpago em uma tempestade devastadora, trás medo e alivio. Sua boca possui lábios carnudos como o pecado. Ele caminha como um deus, ou a representação de um. Sua face é lívida e de uma beleza sem par até mesmo entre os anjos, ele é, porém, mais velho que estes apesar de sua aparente juventude. Ao vê-lo é impossível conter-se ao impulso de perguntar o seu nome: como todos o de sua espécie, ele tem vários. Mas seu nome, seu verdadeiro nome, é um mistério e ele só o diz apenas uma vez a cada pessoa.
Ouvir o nome dele é como ouvir todos os sons do universo em seus ouvidos e ver a face de todos os deuses brilhando frente aos seus olhos. É como sentir os sonhos de cada criatura viva em seu coração. Você ouve o nome o nome dele e entende a origem e o fins de todos os mundos, você entende o sentido de toda sua vida e então... irremediavelmente, você morre.
Ele abre uma porta que nunca existiu e caminha por um caminho inventado por ele. Sua presença é onírica e de fato é num sonho onde está agora. Neste sonho ele está sentado em frente à cama de Pablo. Neste sonho o sonhador acorda.
     — Quem é você? — perguntou o sonhador.
     — Eu sou a mãe de seu amante, de certa forma.
     — Você é... Você é a Morte!? — mas para Pablo a resposta estava clara nos olhos do rapaz a sua frente, não havia mais nada que ele pudesse ser além da morte. — O que você está fazendo aqui?
     O rapaz assentiu levemente em resposta a primeira pergunta, mas seu sorriso sumiu ao receber a segunda. Seu olhar tornou-se gélido como o ponto mais norte do ártico. Sua voz sussurrada parecia querer penetrar como uma faca no corpo esguio e nu de Pablo.
     — Eu vim aqui saber por que seu irmão não está em meus domínios e depois que descobri eu vim ver pessoalmente o garoto que tomou o coração do meu filho e o fez usar o seu dom. Você deve se achar um deus da sedução, não Pablo? Afinal você conquistou o coração de um dos mais antigos anjos de antes de criação! E ainda conseguiu fazer com que seu irmão vivesse mais um punhado de anos. É... Ele vai viver, apesar de eu odiar que se metam em meus domínios. Eu sei que ele o ama, mas porque Azrael usou o dom dele com você?
     — Ele quer que eu mate sua filha. — Pablo se sentiu incapaz de mentir diante da Morte.
     —Como ele ousa?! Você é um mortal... mas sim... eu vejo que é esse o seu destino. Lutar contra Morrigan... Porque Az quer matá-la?
     —Ela quer libertar um exercito zumbi ou algo assim... Ele quer impedi-la e acha que esse é o único jeito.
O sonhador viu os olhos da Morte literalmente lampejarem num fogo infernal. O ódio dentro daquele rapaz era devastador como a explosão de uma galáxia de estrelas gigantes, era intenso como a morte de um parente e, principalmente, assustador como um cemitério assombrado.
     — Ela não ousaria fazer isso de novo... Não... Ela vai ousar. Sendo assim, meu bom rapaz, antes que você incomode o eterno sono de Izrail, aquela com quem divido a alma, eu vou lhe dar duas coisas. Uma faca capaz de matar um imortal e um aviso. — de suas vestes Morte puxou uma adaga.
     A adaga era uma replica da lendária espada de Izrail, com uma lâmina feita de vidro escuro forjada no submundo capaz de destruir o espírito de um homem e subjugar a alma de um deus. Pablo segurou seu cabo de obsidiana e fitou maravilhado a arma que recebera. Morte virou-se para a porta que abrira no meio da parede.
     — Espere! Você ainda não me deu o aviso. — Disse Pablo.
     — Por um segundo, eu achei melhor não da-lo. — respondeu a morte sem olhar para seu interlocutor. — Se decidir continuar com isso e tentar matar minha filha, você morrerá mais cedo do que imagina. Se desistir, bem, seu irmão não irá morrer e nem você... por um bom tempo.
     — Como eu vou morrer?
     — Isso você terá que perguntar ao seu amante... se encontra-lo de novo.
Pablo acordou em seu quarto e não pode evitar não olhar ao seu redor a procura da Morte, mas não A encontrou e respirou aliviado ao perceber o sol entrando por sua janela. Por algum motivo, ele se sentia mais seguro a luz do dia, mas não deixou de se sobressaltar quando ouviu fortes passos passando vindos do corredor em direção ao seu quarto. Seus olhos não conteram a felicidade ao ver Miguel a sua frente.
     — Você não vai acreditar, Pablo. Eu tive um sonho tão estranho...
Foi então que Pablo percebeu a ausência de mais um alguém no quarto. Ao seu lado na cama, onde devia estar Azrael, havia apenas uma estranha faca de vidro e obsidiana. Ele então fitou o irmão com uma dor tão intensa quanto a própria morte.
     — Eu também... — ele disse — eu também estava sonhando.



Tiamat

Os fragmentos do fim


   Novamente me encontro no centro de toda criação. Toco a árvore e sinto a pungência dos quatro rios irromperem do meu mundo, sinto o clamor de tudo que eu criei e choro por perceber o fim iminente de tudo que amei e lutei pela existência.

   Eu dei cada um dos passos que moveram a evolução das coisas, eu respirei o tempo e expirei destinos. Minhas lágrimas foram o pranto das chuvas e meus sorrisos foram os raios de sol que iluminaram minha criação.

   Aqui na epigenese de toda criação houve um tempo em que eu segurei meu mundo com ambas as mãos, mas agora eu o deixo cair antes da ruina. Eis que espero que ninguém perceba... eu os abandonei.

O Deus

   Lá no alto do morro, em frente ao mar que recitava fortemente suas canções ondulantes, nós sentimos o vento chegar e contemplamos o horizonte. A primeira estrela logo sumiu diante do brilho retumbante do primeiro relâmpago. A tempestade esteva chegando e lá no infinito mar as pesadas nuvens se formavam.

   Nos demos as mãos, crianças com medo, enquanto o fogo elétrico cruzava os céus. Sentimos o vento, fechamos os olhos e esperamos a chuva. De mãos dadas esperamos a tempestade e o fim de todos os mundos.

O homem

    Eu estava só no inicio, mas a multidão formou-se o meu redor incrédula. Juntos assistimos o céu se tornar vermelho e o amanhecer de um sol a meia noite despontar. A lua brilhava como uma safira.... ou como os olhos raivosos de uma mulher.

    O cara me deixara plantada na rua, hoje ele está plantado em algum lugar no cemitério São João Batista. Não importa, tudo isso já faz parte do passado e meu coração ainda é cheio de outras tristezas.

    Eu cobrei o preço das minhas magoas com sangue, era hora do mundo cobrar o preço dele.

A prostituta

    “Não resta muito tempo e por isso eu estou aqui”, falei enquanto acendia mais um cigarro. Estou apenas a espera que tudo acabe para me lançar de braços abertos pela primeira janela em direção a liberdade.

     Eu tenho asas, mas é minha escolha cair.

O Anjo da morte

     Isso foi há muito tempo e eu estou cansada. Deuses dizem que o mundo foi criado por eles e homens choram romances perdidos. Prostitutas se arrependem e anjos abrem mão daquilo que se chama esperança.

     Eu sou a devastação, o fim de todas as coisas e aquela que engole todas as verdades. Eu sou o fim caótico de tudo que resta e a voz de todas as palavras que se calaram quando Deus chamou pela luz.

     Eu sou o principio e o fim de todo o universo. A magoa, a tristeza, a suplica e a aceitação. Eu sou Tiamat, a mãe de todos os dragões.

     No coração de todos eu acordo.

Tiamat

     Havia uma cartomante que todas as noites previa a mesma coisa. “O seu tempo está acabando”, dizia ela. “Porque você não vai atrás do amor da sua vida?” Provavelmente eu era o único que sabia disso, assim como além dela, eu era o único a saber que por detrás de suas palavras havia culpa. Havia a culpa de não ter feito o que podia.

     Num carro, no outro quarteirão. Um garoto que estaria destinado a se tornar um grande poeta escreve uma carta para o namorado. Eles seriam felizes juntos se o tempo não estivesse acabando.

     Nenhum deles sabe disso. Eles fazem parte dos absortos que não observam a incandescente lua rachar e revelar seu primordial segredo. Eu estou no alto do mundo, acima da torre da igreja e posso ouvir a mente deles divagando sobre como irão continuar suas vidas.

     Se o adolescente que planejava com seus amigos a festa que teriam a meia noite soubesse que aqueles seriam seus últimos segundos ele os perderia em planos efêmeros? Talvez.

     Assim como talvez a cartomante não se surpreendesse ao perceber que todas as cartas de seu baralho estavam negras. “eu não sei o que está havendo.”  Ela gritava. Mas ela sabia, no fundo ela sabia que pela primeira vez sua previsão diária estava certa. O tempo estava acabando.

     Mas nenhum deles sabia. Nenhum deles sabia até o exato momento do soar da primeira trombeta, a primeira rachadura na lua. Então até mesmo eles juntaram-se à multidão para assistir o magnifico espetáculo que era o fim de suas existências. A lua vermelha como sangue e brilhante como aço fervente.

     Uma prostituta fumava calmamente seu cigarro, ela fora uma das primeiras a perceber o fim, mas não se mostrava aflita. Ao contrario, aquele momento era para ela a libertação. Ela matara o ex-namorado e agora estava livre do mal que sua loucura causou. Logo estaria perto dele e o beijaria como sempre o beijou depois das noites de amor. A morte é também uma forma de prazer.

     E eu? Eu estava cansado de ouvir vozes alheias em minha cabeça e já havia decidido morrer antes da lua queimar em seu amago. Eu estava ali no alto da torre e me sentia livre das minhas magoas e culpas.

     Como um anjo eu estava leve e como um anjo eu tinha asas e não as usaria. E como um anjo eu contemplava o céu que rubro denotava o fechar de todas as cortinas, neste fim, lancei-me do alto da minha torre ao abrir as asas que deus me deu e o mundo queimava sobre elas... e este mesmo mundo ruía sob meus pés.

     No fim, eu estava livre.

O Oraculo

     Se eu pudesse parar o tempo, aquele exato momento seria um quadro, feito de fogo, asas e rocha. Mas o tempo corre e os sons se assemelham a uma musica apocalíptica. Um estrondo, o ruflar de asas metálicas e o bater uníssono do coração de toda a humanidade.

     Em outro dia, eu veria tais cenas na tela da minha tv ou num palco do teatro, mas aquele espetáculo acontecia na minha janela e dele eu fazia parte. Era noite, mas o céu brilhava como luzes de neon alaranjadas.

     A lua chocara-se como um ovo e dela nasceu um anjo jeito de fogo. Naquele momento eu pude deslumbrar um poema, mas faltaram-me palavras diante da imagem do tal arcanjo flamejante.

    Era um dragão e era o maior de todos com os quais eu lutara em meus sonhos épicos. E apesar de ter derrotado todas as minhas quimeras, aquele me mataria. Ali eu não estava em meus sonhos..,

   “Meu nome é Tiamat.”  Disse o dragão que obviamente era uma mulher. “Não tenham medo, eu vim apenas mata-los”.

    Por um momento toda a criatura viva na terra se calou e este segundo, este exato segundo pareceu fluido e interminável. O vento interrompeu sua trajetória, as árvores pararam de sussurrar umas para outras e não se ouvia nem mesmo o som de um pensamento ocasional dos corvos que habitam as esquinas.

    “Nunca mais!” Quebraram esses últimos o silêncio. E fluido como gás, o tempo inflamou e pelas intermináveis horas que se seguiram os gritos pareceram se unir num só. Como se toda terra gritasse seu clamor no fim.

O Artista

     Eu estava só e ao meu redor a incandescência provava minha solidão. O asfalto derretia sob os meus pés e a própria atmosfera era composta de fogo. Sozinha, dancei ao redor das luzes. Eu era um ponto de escuridão na terra em chamas.

     Confortável com o calor que lambia minha branca pele, despi-me e pela última vez ouvi os sonoros lamentos que me vestiam. Caminhei descalça enquanto ocasionalmente me lembrava das pessoas que outrora caminhavam naquela rua.

     Um pedaço de rocha lunar me fez lembrar então de quando ruas não existiam e de quando a terra era ainda um pedaço de rocha fervente no frio universo. Foi ali que  Tiamat fora fecundada e seu ovo elevou-se aos céus esperando seu momento. E em minha mão eu segurava um pedaço deste ovo. A lua nunca mais seria vista rondando o céu.

     Não importava. Ninguém além de nos duas restava para contemplar as estrelas. Eu permanecia só aguardando Tiamat vir ao meu encontro. Contudo, até mesmo ela apreciava agarrar-se a rotina mesmo quando esta era despropositada.

     Eu não tinha pressa. Todos os relógios derreteram e não havia ninguém para contar o tempo. Vi a noite passar e contemplei o nascer do sol pela última vez. Calmamente assisti o rei dos astros traçar sua trajetória acima de minha cabeça.

     “Eu sou a senhora desta terra e nada me detém em meu mundo, eu sou Tiamat.” Ela me disse com sua voz autoritária e eu apenas sorri pela graça de sua juventude. No fundo, ela ainda era uma criança cheia de certezas.

     “Não há mais o seu mundo. Você o destruiu com sua caótica existência e cumpriu os desígnios de seu proposito. Não há mais função em sua vida, agora que não há mais nada para queimar.”

     Ela me olhou profundamente magoada e vociferou como faz uma criança que perde um brinquedo importante. “Vá embora, me deixe sozinha. Eu ainda sou a rainha desse mundo em ruinas.”

     Não objetei. Era meio dia e acima da minha cabeça brilhava a luz que iluminava o palco desse espetáculo da vida. Mas a apresentação acabara e Aqueles Que Nos Assistiam foram embora. Levantei minha mão e apaguei as luzes daquele universo.

     No escuro eu me virei para ir embora, contudo, Tiamat ainda se agarrava a ruina daquilo que conhecera. Por um momento, me virei para observa-la uma última vez antes de também partir. Desolada, ela apenas perguntou quem eu era e eu a respondi:

    “Eu sou o seu proposito.”.

A Morte

 

Supernova


 

Eva deita sobre o jardim observando as jovens estrelas de um universo antigo. Abaixo da árvore ela aconchega seu corpo imaginando mundos além do seu. Ela observa as estrelas que riem, choram e bailam ao redor de si mesmas.

Chove. A taça na mão do demônio enche-se das lágrimas do céu, ele calmamente bebe o prantear das estrelas enquanto a jovem rodopia ao redor da árvore. Assim como é embaixo é também acima.

Lá do alto a mais velha estrela assiste o bailar terreno. Ela está cansada e as estrelas que antes riam, choram sua iminente morte. Seu corpo brilha como nunca e ela vê a jovem na primavera de sua vida dançar ao redor de uma brilhante árvore. O bailar da Terra a detém por um instante, o nascer das flores na primavera, o gotejar da chuva no corpo nu de Eva.

– Bailem! – Ela diz as companheiras. – Dancem como sempre dançaram, pois este é o fim e o começo. Eu brilho hoje mais do que nunca, pois nós somos calor e deslumbramento. Nós somos destruição e nova matéria. Os fios do destino.

O demônio ria-se com sua taça, colhendo de vez em quando uma flor da árvore. Era belo assistir as estrelas, era belo ver a humana e era bela a flor do bem e do mal que ele detinha em sua mão. Mas era Setembro e a primavera sempre teima em mudar as coisas belas.

E apesar de teimosa, Eva cansa e novamente se deita, agora notando a presença de seu espectador. Ela não se assusta, pois o demônio é atraente como todas as coisas más; e ela está só em meio ao campo florido e a noite.

– Lindas! Elas estão assim desde que as vi pela primeira vez... Imutáveis em seu bailado etéreo, no mais alto palácio do céu. Serei eu também assim um dia? Imutável como as estrelas? – Perguntou a mãe de toda humanidade.

– Imutáveis? – o demônio sorri, derramando lágrimas de sua taça. – Como pode ser imutável aquilo que brilha? Como pode ser imutável aquilo que queima sua própria essência? Como pode ser imutável aquilo que é força e combustão? Elas dançam no mais alto céu a espera de um colapso. A beleza nunca é permanente, minha cara. – Ele estende a mão que segura à flor em direção a jovem. – Toma, esta é a mais bela flor que você verá em sua curta vida. Ela é como você, jovem e virgem, só será entendida quando ela definhar e da sua morte surgir o suculento fruto.

– Sou também virgem e aceito a flor, mas não desejarei ver o fruto, pois ele é a descendência da flor, vinda de sua degeneração. – respondeu Eva, aceitando o presente demoníaco.

– O bem é belo, mas apenas o mal é atraente. Da atração daquilo que é belo vem à ciência daquilo que é, foi e será. O saber é a morte da inocência que teima em parecer infindável, mas nada Eva, nada é imutável e a primaveril ingenuidade um dia dará lugar a outonal decadência. – O demônio volta a fitar sua cheia taça e sorri com os segredos que apenas ele sabe. – O paraíso é a utopia humana e as estrelas são sua ilusão de permanência. Mas se é tudo tão feito de beleza, porque as estrelas choram e chove no paraíso?

Eva se cala.  Em parte deslumbrada com a beleza da flor, mas principalmente por não saber a resposta. E em sua duvida, ela sente o peso do desconhecido em seu peito e as lágrimas subirem a seus olhos e lá encontrar margem.

– Não, não chore ainda minha criança. – disse o demônio. – Não é a hora de se entristecer com a chuva ou com as estrelas que definham. Não é hora de chorar pelo seu trágico futuro. Haverá tempo, mas esta noite é primavera e o primeiro dia é sempre o mais belo. Aproveite, enquanto ainda não é inverno de novo.

– Mas... Mas elas são lindas e brilhantes. Elas parecem tão eternas aqui debaixo. Como diamantes incandescentes no alto do palácio celeste. Elas têm de serem eternas, elas precisam durar para sempre. Porque daqui elas parecem tão calmas, como esse paraíso.

O demônio sorriu antevendo o futuro. – Diamantes duram mais que os homens, mas não são eternos. Estrelas duram mais que diamantes, mas morrem. Porque apesar de parecerem brilhantes, belas e calmas. Dentro delas há o inicio de sua própria destruição. Cedo ou tarde, diamantes se tornam grafite e estrelas engolem tudo ao seu redor. E paraísos... bem... eu sei melhor que você mesma, sua natureza. Eu ajudei a cria-la.

A estrela mais velha assiste o desabrochar das flores e chora ouvindo as palavras do anjo. Ele a entende, pois também é fruto da decadência que a luz gera. Pois ele também flamejou acima de todas as coisas e apagou-se pelo seu próprio brilho. Ele a entende, pois também ri e chora ao conversar com a jovem. Ele a entende, pois é o principio da paixão e ela é a sua intensidade.

– A paixão é a mais brilhante chama existente. No éter ela brilha mais que Esperança ou Virtude e queima mais que a Fé. Porque paixão é desejo e nada é mais poderoso do que um coração que pulsa por algo. Nada se destrói com mais vivacidade, mas é a essa destruição que as coisas devem sua beleza. Nada que é paixão pode viver pra sempre. Mas de nada adianta viver eternamente, sem ao menos uma vez sentir a beleza, o calor que é ser intenso como chama e essa é inveja dos deuses. – disse Aster, para suas companheiras.

Seu brilho aumenta o ritmo frenético da dança fúnebre que de triste tem apenas as lágrimas que intermitentes alteram-se com risos. O fim é um começo e todos os começos um dia tem seu fim. Essa é a parte da Sonata Prima que cabe as estrelas. De sua explosão o fim, de seu fim, o começo, pois tudo foi estrela um dia. Tudo um dia, foi paixão.

– Eu tenho medo. – disse baixinho a moribunda.

– Você é o próprio desejo, como poderia não hesitar perante o fim? – Gritaram as outras.

– Eu sou paixão e todo meu bailar vem à espera de um colapso. Brilho mais que todas as estrelas do céu e morro.

– E eu também morrerei um dia. – respondeu o demônio a sua mais antiga mãe e amiga.

A taça encheu-se de lágrimas e pesou mais que a mão de seu dono. Cai a taça e o vidro estilhaça espalhando lágrimas ao vento que se forma. Lá do céu começa a tempestade.

Muitas são as flores que nascem e muitas são as flores que morrem. Eva sente-se triste e sozinha na solidão da chuva de Setembro. Seu coração morre e se estilhaça como cacos de cristal e diamante. Ela se segura na árvore do bem e do mal, pois não pode conter a tempestade.

O vento se torna mais forte à medida que a confusão aumenta. Em suas mãos a ciência do bem e do mal e a consciência do fim esmaga seu peito contra as inúmeras flores. Eva afoga-se em beleza, no meio do jardim, ela debate-se em flores. E em sua inocência, ela crê que está indo a um mundo de cores.

A noite torna-se dia no meio da noite. O céu brilha como nunca brilhou anteriormente, Eva deita-se arfando em meio a beleza e seus olhos cintilam com a imensidão do céu. Nem mesmo as flores podem ser tão bonitas, nem mesmo o bem e o mal podem ser tão atraentes.

O violeta se funde ao vermelho, ao verde, azul, amarelo e outras cores que não foram inventadas. E a intensidade a queima por dentro ao passo que nem mesmo o vento pode tira-la dali.

As palavras do demônio reverberam em sua cabeça e ela já não sabe se sua consciência é mesmo sua ou se pertence ao mundo.

Como pode ser belo aquilo que permanece? A beleza é a virtude daquilo que brilha e todo brilhar é o preludio de um caótico fim e no começo era o caos.

Lá no alto morre a anciã e lá em baixo queima-se de deslumbramento a donzela. O demônio, que é mãe de todos os prazeres e pai de todos os desenlaces, apenas assiste os olhos virginais de Eva brilhar com a luz da paixão. Ele já não pode sentir isso.

– Você já foi uma estrela, assim como eu e todas as coisas que compõe o universo e ele próprio já foi um astro que se incendiou em seu próprio esgotamento. A historia sempre se repete, mas ainda é belo assisti-la pelos olhos inocentes. Você é matéria de estrela, você é matéria de sonho. – O demônio assiste o último brilhar de Aster sumir -- é tão lindo céu em supernova.

– E é tão triste o azul da noite quando ela passa... – respondeu Eva exausta após o incendiar de seu próprio coração.

Seus olhos fecharam-se no pranto e ela sentiu o frio do fim afoga-la no escurejar da noite, mas logo a estrela rainha ascendeu aos céus e o novo início veio ao seu encontro e ela estava num mundo além do dela.

Ela abre os olhos e percebe que o sonho acabou.

No meio do jardim, Eva conheceu Adão.

Princesa das Águas

 

A densa floresta amazônica trazia em si a egregora do medo aos olhos da jovem índia, em busca da beira do lago mais doce ela caminhava para usar magias proibidas roubadas do pajé. Magias de amor e sedução, capazes de levar os homens a loucura.

Iara ainda era jovem, seus cabelos negros como a noite coroavam a pele morena de índia faceira, seus olhos belos e negros eram como noites no principio dos tempos, antes de Ceci se levantar no alto do céu.

No lago ela iniciou seu cântico sombrio, traduzindo lendas anteriores ao nome de Tupã, evocando energias ancestrais, que fariam até mesmo Anhangá, a alma velha, tremer diante da magia.

Ceci reluzia diante do lago, o dotando de uma forma fantasmagórica que se acentuou quando a fina chuva iniciou seu curso em direção ao chão. Ali, diante do lago, Iara concretizava seu desejo.

De olhos fechados, ela evocava em si o escuro do céu, para que sua pele morena brilhasse como as almas dos guerreiros que impassíveis viviam nos céus de Tupã. O assobio do vento por sobre as copas das árvores a fez tremer nua diante do cerne da própria magia.

– Que desejas tu, filha da mata?—perguntou a Deusa Inominada. Mais antiga que o próprio tempo e os próprios deuses a quem o pajé temia.

– Eu desejo ter Yasã, o filho do cacique, o mais belo dos mais belos homens que já passou pela tribo. Valoroso guerreiro, mas que deseja desposar Ariê, minha irmã. Eu sou mais bela do que minha rival e desejo ser ainda mais bela e ainda mais irresistível do que todas as mulheres da tribo unidas numa só canção.

Do enlaço entre Yasã e Ariê virá o futuro da tribo, valorosos guerreiros que guiarão a todos para anos de prosperidade e gloria. Teu destino não é se enlaçar com esse bravo guerreiro, mas unir seu destino a Cauã, o futuro pajé.

Cauã que observava na chuva a cena, não pode deixar de ouvir o comentário da Criatura sobre a sua futura união com Iara. Um longo sorriso surgiu em sua face, pois ele tinha grande apresso pela moça, que em sua opinião era a melhor esposa que um guerreiro da tribo podia possuir. Mas seu sorriso logo se desfez com a resposta furiosa da moça.

– Cauã? Aquele fraco? – desatou-se a rir em demasiado divertimento cruel. – Cauã não passa de um arremedo de guerreiro. Nunca, nem diante dos próprios raios de Tupã eu me juntaria a aquele curumim, pois pra mim ele não passa de um infante em corpo de homem.

Ainda assim, sabendo que o futuro de sua irmã está junto ao futuro de sua tribo, você diz que prefere negar-se ao seu destino para usurpar o dela? Se fizeres isso estará pondo em risco a própria existência de sua tribo.

– Ainda assim eu o quero. Ainda assim eu desejo ser irresistível. Faça-me a mulher mais irresistível de toda a tribo, de fato, faça-me a mulher mais bela de todas as tribos. Eu arcarei com as consequências de meus atos.

Não posso fazê-lo apaixonar-se por você. Mas te digo que todo o homem a desejará assim que ouvir sua melodiosa voz. Teu canto enfeitiçará todos os homens, assim como seu corpo, você será a mais formosa de todas as mulheres.

No coração da floresta uma música foi cantada, o próprio Tupã iniciou uma tempestade de raios e gritos furiosos, enquanto um par de voz melodiosas enveredava-se por sobre a mata.

Todo bicho, toda planta, todo homem e toda mulher ouviram a voz da Deusa Inominável e cantaram, pois a voz e a vontade Dela, é o som de todas as coisas vivas e mortas existentes.

Cauã ficara maravilhado com o dueto de vozes belas e sedutoras e em sua devoção esquecera-se de todos os pudores ao avistar o corpo nu de sua amada, ele a desejou mais intensamente do que nunca e revelou-se para ela, a chamando para si.

Movida por encanto, Iara deixou-se levar pelo desejo sôfrego daquele a quem detestava e enquanto durou a canção, ela encontrou-se nua a deliciar-se como um animal a beira do lago. Mas apenas enquanto durou a canção da Deusa com suas intermináveis formas de mover o tablado do destino.

– Iara, minha doce Iara, tão perfumado é o seu corpo. Ficai comigo pela eternidade minha amada. – mas o encanto já se quebrara e apesar de Iara ter se tornado a mulher mais formosa já vista por aquelas terras, ainda continuava a sentir nojo de Cauã.

–Me largue, me largue. Eu não desejo me unir a um reles guerreiro médio como você, eu quero o meu amado.

Nu e profundamente magoado, Cauã ouviu a mulher que amava proferir todo o tipo de insultos para com ele, sem preocupar-se com os sentimentos do guerreiro. Iara era uma mulher cruel e agora o jovem percebia isso.

Cheio de fúria Cauã gritou pelo Deus dos Índios, o Senhor do Sol e do Raio, Tupã que respondeu aos seus anseios gritando ainda mais alto em sua morada celeste. Em sua sabedoria, ele devotou poderes ao guerreiro, dando-lhe o status de pajé, pois ele um dia seria o líder espiritual da tribo.

– Em nome do Raio, eu a expurgo da tua casa. Desgraçada devoradora de homens, você jamais verá o meu amado, pois ficará eternamente presa nesse lago e em todos os mais profundos recantos aquáticos da floresta. Amaldiçoada será, seduzirá todos os homens com sua profunda voz doce, mas a todos afogará em cegueira apaixonada. – Cauã gesticulava furioso os braços, enquanto a jovem amada cada vez mais aproximava-se encolhida da água. – Seu nome será conhecido por todas as tribos, Iara sedutora de homens.

As pernas da jovem se transformaram numa sinuosa causa de peixe e sua beleza acentuada pela maldição tornou-se ainda mais irresistível, mas permaneceria eternamente escondida dos olhos mortais, pois aquele que a visse, se afogaria por tentar se aproximar da bela sereia que ela se tornara.

O próprio Caua tornara-se vitima de sua maldição e cego de dor, ódio e paixão, aproximou-se de Iara que o afogou impiedosamente nas águas do lago, envolvido pelos braços da amada e da Deusa.

Dei-te o que pediu, mas ainda assim não conseguiste o que desejou. Por isso, serei benevolente e conduzirei a sua voz até os ouvidos do ser amado. Yasã sairá dos braços de sua irmã e virá até a ti.

Não. Por favor, eu te peço. Não o traga, senão ele será tragado pelas águas cruéis desse lago, não o traga até mim ou eu o destruirei e assim destruirei todo o futuro da tribo, pois ele é o guerreiro de mais valor dentre todos e sem ele, jamais venceríamos uma guerra.

Nunca te preocupaste com o destino de teu povo e por isso não a ouvirei, pois só tinhas direito a um pedido e desejaste seduzir o seu amado. Eu, como a Inefável Deusa dos Mistérios da Noite, darei o que sua alma anela. Pois cantarás eternamente Iara o seu lamento, enquanto o meu nome existir e o meu nome é eterno, como será eterna a tua pena.

***

Negra noite conduziu o canto até o profundo rincão em que Yasã dormia cansado de sua caçada e das guerras que travara. Sua trigueira face complacente de sonhos doces logo foi perturbada por esgares de duvida e apreensão, de dentro de seus sonhos de abundancia para a tribo a musica o arrancara.

Seus olhos abriram em meio à escuridão enquanto suas pernas obedientes a voz feminina caminhavam cambaleantes pela floresta em direção a clareira de onde o som se originava.

Era a mais pura voz que Yasã podia imaginar ouvir em toda sua vida, a voz entorpecia seus sentidos e erigia sua virilidade, era como se aquela melodia mexesse com todos os sentidos dele e o enviassem em direção a algo mais sublime que os raios de Tupã.

Seus trôpegos passos o levaram em direção a clareira na floresta, a lua iluminava duas belas figuras, mas só em uma punha os olhos, pois era a moça que cantava. Diante de seu olhar, reconhecer Ceci, a irmã daquela que fora sua amada.

– Iara! O que faz aqui em hora tão tarde, bela Iara? Percebo agora o fulgor de sua formosura e os teus belos lábios desejo.

– Não! – gritou – Seu destino é com minha irmã Ariê. Apenas com ela você deve enlaçar-se, por favor, não! Não se aproxime de mim! – Mas ela tarde e Yasã já vinha em direção a ela, em direção a morte.

Iara nada pode fazer a não ser tomar para si o ser amado. Era dor que ela sentia em seu peito por conseguir o que desejava. Era dor, mas também era prazer, pois o corpo de Yasã debatia-se para sentir o dela e enquanto sua vida se apagava, ele a desejava intensamente como jamais desejaria outra mulher.

No fundo do rio repousou o guerreiro e a amaldiçoada mulher pranteava dentro d’agua e ali ela gritava culpando a Deusa Inominável pela morte do amado, jurando a si mesma guardar para si seu canto mortal.

– A culpa pertence apenas a você mesma em seu desejo cego. E se você não pode conter seu desejar, como pode conter seu prantear?

 E apesar dela lutar intensamente contra sua própria natureza todas as noites, homem algum que adentrar na mata deixará de ouvir o canto de Iara e afogar-se em sua tristeza.

Ato I - Augurios

 

Ato I

Augúrios

 

Em meio à floresta em qualquer clareira verdejante. O monologo e o dialogo se olhavam como se já fossem apresentados, mas eles eram conhecidos e tinham nomes, esquecidos pelo tempo e por eles mesmos.

Henrique – Quem sou já que a escuridão domina toda forma neste monologo da vida? Posto que sou também Deus, já que este não existe, como eu não existo.

Miguel – Tu não crê em Deus porque não crê em nada, mas quem es tu para dizer que a vida é um monologo? Por certo a vida é um dialogo, posto que ninguém esteja só ou solitário.

Henrique – Diga isso à saudade. Diga isso a aqueles que esqueceram seus próprios nomes. Pessoas como eu ou você. Acorda-te e olha a tua volta, não há nada aqui.

Miguel – Você renegou a ti mesmo e a mim. Como se não se importasse. E já não foi a primeira, mas talvez seja a última. Que queres fazer com isso? Fingir que a vida é bela e chorar escondido em tua casa?

Henrique – O que eu quero não lhe importa. Nada importa. Se queres realmente atingir toma – o garoto puxa um punhal de seu bolso e o entrega nas mãos do jovem cor-de-mel que o olha sem entender. – crava este punhal em meu peito, pois a morte é tudo que mereço e ela tem que vir de tuas quentes mãos.

Miguel – Então toma tu também o teu próprio punhal e fere-me o peito, posto que assim talvez você se dê por satisfeito e mate a nós dois, porque eu também mereço a morte depois de te fazer sofrer.

Henrique – Então não te arrependas de fazer o que fizeste. Ambos somos culpados de nossa própria ruína. Lágrimas, para quê, posto que nós agora nos esquecemos de nós mesmos? Ou talvez seja essa apenas mais uma mentira tresloucada no tempo, mais uma de nossas mentiras.

Miguel – Nós juramos esquecer tudo que passou, esquece-te?

Henrique – E eu teria dito: “Não jures, para.”, mas quem sou eu para citar Shakespeare? Sou um mortal e um morto que já esqueceu de tudo inclusive de si mesmo, mas que jamais esquecerá de tua boca, de teus olhos, de teu rosto...

Miguel – Pare! Não minta também, pois você quis assim.

Henrique – Sim é uma mentira. Tua voz também jamais esquecerei, mas não irei falar de amor ou tentar provar alguma coisa. Não cabe a mim. Também menti, mas não agora, menti quando fingi (por fingir) acreditar quando você dizia que era pra sempre, eu nunca acreditei em pra sempre.

Miguel – Então nunca acreditou na veracidade do meu amor?

Henrique – Acreditei em teu amor, mas não em tuas juras. Somos ambos culpados das mentiras que contamos e nos ferimos por causa disso, alguns mais, alguns menos, mas não são todos feridos nessa vida?

O garoto ferido em sua alma por fim caiu ante a terra e chorou lágrimas tristes e sinceras.

Miguel – Não chore! Não sabe que parte meu coração assim o fazendo?

Henrique – Que pensas? Acha que acredito que tu também não sente a total tristeza, mesmo que não chore, estranho não é? O único aqui sem alma é o único que chora por perder alguém que foi importante um dia.

Miguel – Chorar pra quê? A quê me importa chorar? Não desperdiçarei lágrimas com coisas supérfluas. Não renegarei o amor que sinto por outra pessoa para aplacar tua tristeza.

Henrique – Eu diria “Romeu, Romeu, abdica teu nome; risca-o e em troca dele que não é nenhuma parte de ti mesmo me tenha inteira.”, mas você não é Romeu e eu não sou Julieta e não há amor como em peças. Não somos Romeu ou Julieta, Tristão ou Isolda, Isis e Osisis. Nós não sabemos nem que somos e na verdade não existe amor como o deles em nossa vida, posto que você nem o amor real conhece.

Miguel – Não me julgue. Você não me conhece.

Henrique – E nem você conhece a si mesmo, pois se esconde nessa mascara de falsos nomes e também de falsos rostos. Acha que o que me machucou um dia foram tuas promessas vazias? Nunca acreditei em tuas promessas porque te conheço pra saber que você nunca as cumpre, mas te conheço o suficiente para saber que você as diz de coração. O que me machuca é saber da tua indecisão ante a ti mesmo.

Miguel – Eu já me decidi.

Henrique – Então te decidas e enfia logo este punhal em meu peito, mata-me e me deixa seguir minha vida como um espírito errante, pois estou farto dos nossos erros e da nossa vida. Crê que em tua boca ainda reside à tentação que me ordena jamais encontrar o paraíso, posto que o paraíso seja teus lábios e teus lábios são o mal.

Miguel – Se me julga mal, então porque toma meu tempo dessa forma? Porque me ordena que eu faça algo o qual eu não vou fazer.

Henrique – “Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.” É isso que eu deveria dizer, mas não é teu pai que quero que tu renegues, não é teu nome que quero que despojes e não sou um Capuleto, aquilo que sou não posso mudar.

Miguel – É teu destino jamais mudar e o meu destino é seguir do meu jeito em encontro as garotas virgens do paraíso. Posto que o que me ordenas acabará por me levar ao inferno.

Henrique – Então eu viveria, um, dois, mil dias no inferno para ter o que busco, porque um céu sem o objeto de meu amor é nada mais do que nuvens de chuva vazias e o inferno com você seria o calor verdadeiro.

Miguel – Fala bonitas blasfêmias, mas nós dois estamos no Limbo, entre o céu e o inferno e aqui não somos mais nada.

Henrique – Você me jogou no Limbo e acaso te esqueces? Só estás aqui porque eu sonho que estais... porque você não está aqui, eu esqueci meu nome, eu perdi minha alma e você ainda ama os outros pela pena que sente da tristeza deles, eles se cortam, eles se desesperam, eles choram para que você os ame e enquanto eu morro silenciosamente para não machucar-te, mas agora, quem se importa? Morrerei de fato tão rápido quanto este punhal puder perfurar minha carne e se tuas mãos quentes não transpassarem meu coração, eu morrerei aos teus pés conduzido pelas mãos frias da morte.

Miguel – E se eu o matasse ainda assim você não mancharia com teu sangue os meus pés?

Henrique – Sim, mas meu sangue escorreria por entre teu corpo e antes de meu corpo chegar ao chão ele perderá todo o brilho e todo calor em teus braços, e toda parte minha que eu perdi ficaria impregnada em ti, como uma lembrança fúnebre da minha presença em tua vida. Sou o último elo que te liga ao passado, sou tua lembrança, mas agora eu morro pelas minhas próprias mãos porque você se nega a me emprestar as tuas. Prefere me matar aos poucos, mas não concluirá teu intuito.

Henrique toma, em meio à atônita face do amado, o punhal de suas tremulas mãos e o leva de encontro ao peito para o derradeiro despedir-se. Miguel olha-o nos olhos no momento final de desespero e o impede. Está na hora e ele o abraça de encontro ao peito.

Miguel – Você está morto... eu lembro de seu corpo caído em meios as giletes... eu lembro de seu funeral e me lembrei dele dia após dia da decrepitude de meu corpo. Eu estou velho... e você está morto. Não... estamos os dois mortos, percebo agora que este é o confronto final. Você se matou e morreu, eu morri. Morremos todos pela minha covardia.

Miguel tomou coragem e perfurou o coração que desejava possuir, o sangue jorrava gentilmente em seu corpo enquanto ele acalentava aquele a quem amou a vida inteira. Aquele era seu confronto com a morte e ele precisava libertar Henrique antes de partir em paz.

Henrique – Romeu, Romeu... Porque não me deixaste nem uma gota de veneno? Morro agora em teus braços e tu? Vives sem mim neste Limbo. – o jovem puxa um frasco de veneno de seu bolso e toca o rosto do amado descendo o liquido à garganta de Miguel. – agora ambos nos libertamos deste Limbo e daqui partimos juntos para o amanhecer.

Sangue e veneno derramaram-se no chão ao lado de dois corpos nús em frenesi. Henrique tombou nos braços do amado e Miguel derramou-se sobre a terra, ambos se olharam e fecharam os olhos. O dia nasce e os dois se desfazem em borboletas negras rumo a Imensidão.

Romeu e Julieta estão mortos.

 

 

A Ciranda

 

Tão bela é aquela que rodopia na Praça da Milícia, majestosamente sedutora sob mil formas de mulher. Tão bela é aquela por quem os homens se apaixonam, a sedutora voz do pecado, tão bela é ela, que incita a cobiça, tão cheia de vaidade que desperta inveja, arrogante em seu andar de bailarina, Colombina.

Bebia sem parar e sem querer, o doce Pierrot apaixonado. Não podia deixar de chorar por sua Colombina que dançava na Praça da Milícia, de chorar e de recitar versos que aos ouvidos da amada nunca chegariam por sua boca.

– Não fica ai chorando feito um maricas desgarrado. Vá procurar outro rabo de saia que esta tal de Colombina não te merece. Você merece moça menos faceira e enganosa, essa ai há de te levar ao fim de tua sanidade, te aviso antes que sofra.– dizia a dona do bar em que estava, no cruzamento principal da Esgar de Maio.

– Mas, eu já estou sofrendo...  e ela é tão bela. Tão doce...

– E, no entanto, não te quer. Ela não te tem amor e não quer saber de sonhar os seus sonhos românticos. Vá-te daqui Pierrot, que tuas lágrimas deprimem meus ébrios clientes e teu dinheiro não tem mais valor do que o de todos eles juntos.

– E o meu amor? Não vale mais do que o de todos que lá na praça cantam para ela?

– E o teu amor, vale menos do que o dos cães que ladram choramingando quando ela passa.

Condoído, cheio de magoa e de coração partido, o Pierrot apaixonado desceu a Esgar de Maio em direção a saída da cidade, de todo, não tinha mais forças para ficar olhando sua amada rodopiar feliz entre os homens. Desistência era seu nome agora.

Caia, ébrio de tanta tristeza, antes de chegar ao seu intento e via já no auge de sua decadência a doce Colombina correr em sua direção.

– Quer um pedaço de sonho? – oferecia ela o doce que acabara de comprar na padaria.

– Eu quero sim um pedaço dos seus sonhos. – e a beijou ali mesmo, com seu cheiro malfadado de vinho.

A bela a qual ele cobiçava, disparou-se a correr até a praça novamente, não queria um bêbado qualquer que a desejara, queria dançar e ser admirada pelos homens a sua volta. Queria o mundo inteiro a rodopiar a sua volta.

Triste e de coração ainda mais partido, o Pierrot subiu o alto da Colina Melancólica e lá se afundou ainda mais em pensamentos vãos, sonhando com o dia em que conseguiria o beijo recíproco de sua amada.

Seu nome, em vão, ali era esperança. E esta era verde como os campos da colina, em sua monotonia eterna tão próxima à cidade colorida, onde em seu largo cantava o Poeta uma canção dos Los Hermanos, em uma versão difusa e melancólica.

– ... e é sua sina chorar a ilusão, em vão... – sorriu o Poeta ao receber uns trocados miúdos, ao longo que os passos apressados e ensandecidos do Pierrot subiam novamente a Esgar de Maio em direção ao bar.

Um pouco mais de vinho, uma dose acobreada de rum, ele parecia beber para afogar as magoas, mas estas pareciam revirar-se cada vez mais em seu estomago, cada vez mais em sua alma, até fazê-lo ficar cego de desejo pela Colombina que dançava o ignorando.

Haviam tantos homens, mas ainda assim o Pierrot não se enciumava, pois o coração de sua amada a todos retaliava como um muro instransponível, não só para ele, mas para todos os tolos que a cercavam feito moscas.

– Não te disses para parar de chorar por causa dela? Ora que descabimento em pleno carnaval alguém chorar assim pelo amor de alguém. – e deixou o radio a tocar Los Hermanos, como uma alegre canção a desmanchar os sonhos do cliente assíduo.

– Deixa de espantar o coitado, Dona Aletheia, o cara ainda vai é ultrapassar o Poeta se continuar a recitar versos para aquela mulher linda que dança ali na praça. – Disse um jovem rapaz que pouco havia bebido. – Bora irmão, recita ai alguma coisa bela para a tua menina. – disse cheio de sua malicia o Arlequim.

Tão bela é aquela que rodopia na Praça da Milícia... , arrogante em seu andar de bailarina, Colombina. Que em mim lança seu feitiço de luxuria, em sua avareza que toda beleza guarda para si...

– Belo poema, meu amigo. – em seu elogio havia uma gota de ironia e ao destilar seu veneno sobre o apaixonado, pagou sua conta e saiu em direção a praça, dançando alegremente.

Rapazote bonito e dançarino nato, o Arlequim logo ganhou a atenção da Colombina e em seus ouvidos alvos tratou de lançar-lhe os poemas que do profundo coração do Pierrot brotaram feito rosas.

– Oh! Arlequim, como posso deixar de me apaixonar por palavras tão doces... Pois bem, fica com esse beijo e nele entrego meu coração a ti. – E ali, na Praça da Milícia o amor entre o Arlequim e a Colombina iniciara-se.

O triste Pierrot já sem coração se encontrava, de tanto doer-lhe o peito em magoa pelo amor perdido de sua amada, parou de beber e arrastou-se em direção a sua casa, aonde em vão procurou fugir das fofocas da cidade que logo anunciariam o namoro no festival carnavalesco.

Pelo seu ímpeto em fugir, não ouviu as vozes que lhe chegavam à porta e por isso a noite corria sem que o Pierrot soubesse do plagio que sofrera em seus sentimentos. Já era tarde quando o ardil lhe fora revelado. A noticia de que sua amada havia se apaixonado pelos seus versos na boca do rival só chegara quando de toda sua bebedeira, apenas uma leve dor de cabeça e uma profunda amargura lhe restavam.

Sentiu em sua dor de cotovelo seus olhos revirarem-se nas órbitas. Ali ele se chamou Culpa e amaldiçoou sua tolice, como uma inútil prova de amor.

Em seu medo de ser rejeitado pela amada, entregara seus versos ao vento e o matreiro vento os entregara nas mãos do não menos malicioso Arlequim.

Em prantos, o Pierrot se desmanchou. Não podia suportar tamanha dor e gritou aos demônios e aos anjos, aos céus junto aos infernos, mas não, nenhum destes dignou-se a responder-lhe em seu desespero.

Quebrou copos, revirou gavetas e chorou. Chorou no chão ao lançar a gaveta dos talheres à janela e esta se espatifar como o coração do Pierrot. A luz da lua aproveitava a brecha aberta para adentrar melancólica e doar ao apaixonado um fio prateado de esperança.

Mas os olhos sem rumo, cegos de duvida, raiva e desespero, viram apenas o brilho frio e prateado de um intento cruel.

– O queres? – Gritou aos ventos desejando que suas palavras chegassem aos ouvidos de sua amada. – Ou queres a todos? Eu te amaldiçôo beleza ingrata que repele quem mais te ama. E também te amaldiçôo vil amigo que envenenou minha alma e roubou a dona de meu coração.

Respirou de maneira entrecortada enquanto suas mãos ameaçavam inimigos invisíveis com a prateada faca.

– O queres? Então fica com ele vil amada. Fica com ele ó adorada, devore-o com sua beleza e faça com ele o que fizeste comigo, definha-o com seu brilho que a todos abocanha, o abandona a própria sorte de sua sina desgarrada. Mata-o como tu fizeste comigo! Vil senhora que anelo. – e dizendo isso encostou a faca aos pulsos, como quem se mata. – Não. Ainda não é minha hora, antes de tirar-me o direito a vida, vou dar-me o direito de vê-la uma vez última e, percebo agora, póstuma, posto que já estou morto e sou apenas sombra que caminha.

Os passos desditosos do Pierrot o levaram a agora em direção à vazia Praça da Milícia, onde apenas dois jovens se encontravam a beijar-se com luxúria. Bem diante dos seus olhos reconheceu a sua amada a esparramar sua pele alva na morena pele do amante.

Duas lágrimas desceram amargas e venenosas, como quem foge antes do desastre e gritavam em meio a multidão de vozes na mente do apaixonado, para que ele não desse ouvidos a sua própria razão ensandecida.

Tão bela é aquela que rodopia na Praça da Milícia, majestosamente sedutora sob mil formas de mulher.disse, aproximando-se mais do casal de amantes que pararam alarmados para assistir seu triste fim. – Tão bela é aquela por quem os homens se apaixonam, a sedutora voz do pecado, tão bela é ela, que incita a cobiça, tão cheia de vaidade que desperta inveja, arrogante em seu andar de bailarina, Colombina. – e olhou enternecido para aquela a quem desejava. Quase se arrependendo do ódio que sentia.Que em mim lança seu feitiço de luxuria, em sua avareza que toda beleza guarda para si...

Virou-se então com a faca em punho para o Arlequim e uma, duas, três vezes gritou de amargura e dor enquanto dilacerava a carne do rival. Chorava e o perfurava quatro, cinco, seis vezes, até os braços se cansarem. Não, ele não ia ficar com ela, ele nunca ia ficar com ela. Sete, oito, nove, dez. Raiva, ódio, morte, fim.

e em alva preguiça encosta tua mão naquele que é alvo de minha ira.

No ímpeto de sua raiva, agarrou a amada a força e beijou com a boca molhada de lágrimas. O beijo dela era ainda mais amargo e assustado do que antes e ele por fim corroeu-se completamente por dentro sem mais perceber os sentimentos que vazavam pelos olhos dela.

– Eu te amava! Eu te adorava como uma deusa! E você me renegou e preferiu este mentiroso que lançou a ti as palavras do meu coração. – e o vermelho misturava-se ao prateado da faca, manchando suas mãos com o sangue do rival. – Era para você ser minha, só minha! Eu te amo.

Colombina, triste e desesperada, apenas se lançou aos braços do amado buscando proteção nas mãos frias de Arlequim, não havia mais vida nos braços que tanto desejava e tudo por conta do bêbado a quem dera um sonho, mas não o sonho que ele desejava ter.

– Ai meu amor, ai meu amor, não me diga assim... cantou quase sem voz em desespero. – Por favor, moço, me deixa ir e prantear a morte daquele a quem amo...

– Você não precisa prantear-me, porque eu estou aqui meu amor, eu estou aqui. Será que eu teria que me vestir com luzes de néon para que tu me visses? Eu estou aqui a tua frente te desejando. – Naquele momento, o nome do Pierrot tornou-se suplica, humilhando-se com a faca em riste.

– Mas não é a ti que eu amo! Eu amo Arlequim. Somente Arlequim.

Uma, duas, três vezes ela repetiu enquanto o vermelho invadia seu vestido amarelo. Mais algumas vezes a dor prateada a invadiu, mas já não havia mais contagem nos olhos ensandecidos do Pierrot, era apenas o movimento repetitivo e enviesado do subir e descer da respiração do outrora apaixonado.

– Arlequim... – ela falou enquanto sua vida a abandonada.

Sozinho à luz da prateada lua, o Pierrot que se chamava Ira tomou para si seu último nome, arrependimento. Sem entender direito o movimento torpe de suas mãos, a prata manchou de vermelho os pulsos trêmulos e ali mesmo, na Praça da Milícia, seu coração se desmanchou em sangue na calçada, junto ao corpo da amada e seu amante.

 

 

Ѫ–UFC: Mutantes Universitários

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– #FFFFFF. – O paciente repetia cego pela intensidade da luz no corredor. – Branco, eu não gosto dessa cor, ela dói nos meus olhos e contrasta demais com o preto da farda de vocês. #000000. – sorriu levianamente, como se toda aquela cena fosse uma piada. – Não que eu me importe com isso, é claro.

Ninguém mais sorriu. Não havia graça para nenhum dos militares em escoltar um louco a sua provável última sessão de psiquiatria. Um louco excepcionalmente talentoso, claro, um hacker que invadira o sistema mais secreto do governo como se fosse um simples joguinho para passar o tempo. O prisioneiro de prioridade máxima, mas ainda assim um louco que pouco oferecia perigo de escapar. Ninguém conseguiria escapar daquela prisão.

– Paciente 0988. – Falou o inexpressivo psiquiatra da Nirvana, a força de operações secretas do governo. – Entre. Seja bem vindo ao meu consultório. Essa é sua primeira vez aqui não é? Nunca te deixaram subir até o nível - 17.

– Essa é a minha primeira e única vez aqui, doutor. Afinal, só me deixaram subir porque eu apresentei uma melhora considerável, na verdade, essa sessão especial nem deveria estar havendo, mas você achou melhor que ela existisse porque queria ter certeza de que eu estava curado do meu mal.

– Fico feliz de saber que você entende perfeitamente o motivo dessa sessão. – Ele estava mentindo. Por detrás de sua típica inexpressão havia um esgar de medo, como ele podia saber informações desse tipo? Deveria haver alguma falha na segurança, a situação clinica do prisioneiro era uma informação sigilosa, nem o próprio 0988 deveria saber que estava prestes a receber alta. – Bem, senhor 0988, estou de posse do seu prontuário original.

– Me chame de F. Afinal não vamos nos ver de novo.

– Veremos. Isso quem decide sou eu. – o médico pigarreou nervosamente enquanto lia o prontuário fingindo atenção. – Quando começamos o seu tratamento, você apresentava traços de esquizofrenia, megalomania e possuía uma personalidade maníaco-depressiva deveras psicótica. Fico feliz em saber que contribui para sua intensa melhora.

– Você não deveria estar me dizendo isso como médico, Doutor Kant. Esse seu modo de falar não é um tanto antiético? Portanto, devo supor que você não está falando comigo sob o rótulo de médico e eu... eu vou falar com você como F. e não como o paciente 0988.

– Escute aqui. Sem a minha assinatura você nunca vai ascender ao nível – 20, junto com os outros prisioneiros de segurança máxima. Então pare de me interromper, 0988.

– Você está errado, duplamente errado, eu diria. Primeiro, porque eu não vou precisar de sua assinatura, ela me é desnecessária. O nível – 33 é tão bom quanto o -20, eu diria. Segundo, eu de fato sou megalômano e possuo uma personalidade maníaco-depressiva psicótica, porém não sou esquizofrênico, de forma alguma. Minha percepção da realidade não é movida por enganos da minha mente. A sua é que é limitada.

– Acho que você não me entendeu! – alterado o médico fuzilava o paciente com o olhar, quebrando sua inexpressão. – Se continuar agindo desse jeito você jamais irá receber alta.

– Eu não espero que você compreenda. A compreensão requer o entendimento da totalidade dos fatos. – sorriu como se brincasse com a raiva ostentada no rosto do médico. – Os fatos são a expressão singular daquilo que vocês chamam destino, uma serie seqüencial de expressões numéricas que definem o programa, vida. Não posso esperar que você compreenda nem mesmo isso, seu software é limitado.

– O que você está querendo dizer?

– Não estou culpando você. A culpa é de Deus, o programador do sistema, que vocês comumente chamam de realidade. Não creio que isso seja real, os números, os números são reais, mas até mesmo as expressões mais simples e suas conseqüências são ilusões. A não ser que você considere programas de computador como sendo reais.

– Você não está tomando seus remédios regularmente, presumo.

– Doutor, doutor. Não percebe, você me trazer aqui é parte um todo maior, infelizmente um todo em que eu tive pouca participação até agora, porque os remédios inibiam muito dos meus poderes e ainda agora eles estão um pouco limitados, mesmo que eu não os tenha tomado hoje. Mas aqui, eu tenho um alcance espetacular. – F. explodiu em gargalhada. – Eu creio que você não saiba que este é um dos únicos andares inferiores em que a rede se conecta com a central. Claro que você não tem acesso a essa rede, afinal você é apenas um subalterno.

– Eu vou chamar os guardas.

– Não, você não vai. Porque a acústica dessa sala é projetada para ninguém que está lá fora ouvir o que é dito aqui dentro. Portanto, não adianta gritar. O botão que aciona a emergência é controlado por computador, assim como a porta, eu controlo o computador, portanto, você está tão preso nessa sala quanto eu estou nessa realidade.

– Você não pode controlar o computador. Você não pode fazer isso sem ao menos ter algum computador ligado ao sistema e não há nenhum nessa sala, mesmo que houvesse, você não poderia mexer nele ai sentado. – mas era um fato, o botão não respondia ao comando.

– Claro que eu posso, porque eu posso controlar toda a tecnologia com o poder da minha mente. E também sou capaz de moldar certos aspectos da realidade através da mudança dos cálculos do destino. Mas eu também sou limitado, meu hardware está preso a essa realidade e por isso eu não consigo controlar a totalidade desse programa.

– Porque você quer algo assim?

– Você não entende de programação não é? Dentro de um computador eu posso ser Deus, porque eu tenho o poder de controlar cada coisa, cada vertente, tudo pode ser mudado por mim, até mesmo as regras. Mesmo que o sistema se torne inteligente e tenha a capacidade de burlar algumas das minhas regras, eu ainda o controlo. Eu sou Deus no meu próprio mundo, doutor. – o jovem debruçou-se sobre a mesa, chateado com o que estava dizendo. – Mas eu não estou no meu mundo.

– Você nunca vai conseguir isso. Isso é loucura, ninguém pode controlar o mundo. Ninguém pode sair da realidade.

– Sim, pode-se sim. O governo escondeu um globo muito importante para mim, um globo mágico, sim, pura magia, nada de tecnologia feita pelas mãos do homem ou esse programa chamado realidade. O globo é formado pela mesma matéria divina, é fruto da própria Origem e o governo o escondeu, porque jamais conseguiria usa-lo.

– Mas como você usaria esse globo e porque precisa de mim?

– Não seja egocêntrico, eu não preciso de você. Eu estou apenas matando o tempo enquanto procuro a informação no seu sistema. Afinal, há uma rede muito grande de arquivos criptografados e eu vou levar muito tempo para acessar todos os dados secretos do governo, digamos uns vinte minutos. – o paciente acomodou-se na cadeira. – Eu vou usar o meu poder para acessar o globo, tecnomágia, a união perfeita entre magia e tecnologia me fará transcender a um ponto em que eu poderei descartar esse software e me tornar um deus em meu próprio mundo, fugindo totalmente desse.

– ...

– Não fique assim, doutor. O senhor ajudou-me a localizar a pedra da lua, um dos maiores poderes escondidos aqui nessa terra. Você ajudou o futuro Deus desse mundo a alcançar a glória e talvez você seja recompensado um dia.

– Eu nunca ajudaria alguém como você, maníaco.

– Eu sinto muito doutor, mas você já me ajudou, me trazendo aqui e não vai poder me impedir. Porque eu estou aspirando a divindade e deuses jamais cometem erros. Tenho que começar a treinar desde já. Portanto, não posso cometer erros, não posso deixá-lo vivo.

O jovem arrumou sossegadamente os cabelos negros, sorrindo, como se toda a pressa fosse inútil. Estendeu a mão espalmada em direção ao pálido medico que chorava copiosamente. Houve uma explosão de números negros nos olhos do médico, houve luz por um segundo, depois, só havia o vermelho sobre o chão branco.

– #FF0000 por sobre o #FFFFFF. Perfeito. – o prisioneiro fechou os olhos, acessando todo o sistema de dados de todas as mentes ao seu redor. – deletar do sistema. Abrir portas.

O prisioneiro sorriu ao caminhar novamente pelos corredores brancos, agora machados de vermelho com o sangue daqueles que outrora vigiavam a principal prisão de segurança máxima da Nivarna.

Assobiou uma música enquanto caminhava lentamente para fora de sua masmorra de concreto, não havia pressa, pois em breve até mesmo o tempo lhe pareceria supérfluo. Seu cárcere de sombra, carne e números começava a chegar ao fim.

 

Da solidão, do amor e de outros venenos

 

Era véspera de natal quando eu o conheci, não havia neve sobre o chão, sinos, ou a espera na lareira por um pai que nunca vem. Nunca houve presentes, nem janta, nem familiares, eu estava só e naquela noite, eu estava ainda mais só.

Era triste ouvir sua voz melodiosa brincar com meus sentimentos, era cruel perceber que pouco a pouco eu estava interessada naquele sensível rapaz de olhos negros como a noite. Dia após dia, eu me encantava mais por aquele que seria o apogeu de minha crescente ruína.

Dia após dia meus olhos se tornavam cada vez mais verdes e meus cabelos a cada momento ficavam mais loiros, o passar do tempo era estranho para mim. Era como se tudo fosse parte de um mero acaso temporal, como se nenhuma forma ordenada coordenasse o globo. Eu estava só no mundo.

E veio o ano novo, apenas um renascimento do antigo, mas o champanhe não fora aberto para macular o chão negro com sua leve espuma branca, as taças que ousaram sobreviver a minha última catástrofe estavam empoeiradas e nada no mundo me faria erguer-me para limpa-los.

Nessa noite, ele estava lá, ao lado da minha solidão, para atormentar-me o juízo com suas palavras rudemente doces. Eu não o entendia, mas no fundo, minha alma ansiava por ele.

– Você não deveria sofrer assim. Isso é ridículo! – ele dizia encolerizado com a minha depressão, mas logo sua voz se enervava e ele acariciava minha face, dotado dos sentimentos mais nobres. – Não... Não chore, não fica assim. Por favor, isso vai passar, sempre passa. Supere. Apenas supere.

Mas eu não superava e, apesar de sorrir, escondia-se em mim uma dor profunda, um vazio que tudo envenenava e engolia. Aos poucos o que restava do meu corpo também me deixava e eu via o mundo cada vez mais translúcido, cada vez de maneira mais estranha. Nem mesmo eu estava lá.

Eu sentia medo de que ele me deixasse ali para definhar e morrer. Mas o meu medo maior era dizer-lhe o quanto ele era importante para mim. E pouco a pouco, cada vez que ele falava, eu me enternecia mais com suas palavras e ele me tinha cada vez mais amizade.

– Eu escutei uma musica. Lembrei de ti, ela é a sua cara. – e punha-se a tocar o violão e dedilhar suas melodias. Senhora encantada que se apóia nas paredes, a vida é curta e a espera é longa... – e sorria ao me tirar da minha depressão para ouvir sua terna voz. – É do Shamaan, um dia eu te trago o CD pra tu ouvir.

Mas ele nunca trouxe e eu definhava cada dia mais. Não havia nada que pudesse me tirar daquele estado torpe ao qual eu me encontrava. O Mal do Coração Partido já havia corroído tanto a minha alma que pouco dela restava para amar.

Logo, eu percebi que ele se cansaria de minhas tormentosas crises de tristeza e passei a fingir cada vez mais alegria. Eu até teria saído verdadeiramente de minha terrível depressão se o mal não houvesse cair em minha vida como uma serpente venenosa e pestilenta.

O mal em minha vida sempre teve um nome, era um anjo em suas vestes rosa, era um demônio em sua astúcia eloqüente, hora soprava aos meus ouvidos e hora atirava flechas em minha direção. Era cruel e devasso o mal, seu nome era Amor.

Mas dessa vez não era sobre mim que esse mal se abateria, Rafael, meu doce desassossego de todas as noites, apaixonara-se perdidamente por uma moça da região, eu temi esse dia, mas ele empurrou-se porta adentro no palácio do meu destino. Rafael estava apaixonado e eu perdidamente morta por dentro.

De inicio, ele não deixou de vir em minha casa. Era de todo meu amigo e confundiu erroneamente meu semblante menos entristecido como a voz da cura, mas o meu rosto era iluminado não pela melhora, mas pela voz do ciúme, da falta de eloqüência e de toda loucura que se elevava em mim. O brilho efervescente em meu olhar era resultado apenas do ódio. Apenas da raiva que queimava os restos sufocantes da minha alma e nada mais.

– Sabe Anna, hoje eu estava na praça com a Amelie. Nossa, ela é extremamente divertida e eu passei horas a conversar com ela sobre muitas coisas. Temos gostos parecidos, eu e ela, outrora viremos nós dois cantar para ti e assim tu a conhecerás. Tenho certeza que muito te agradará ela. – Eu olhei de soslaio para a gaveta do meio em minha cômoda, era onde eu guardava a arma que pertencera ao meu pai. – Você me parece preocupada... você não está com... – ele sorriu. – Hora, você está com ciúme.

Meu desejo ali era pegar a arma, desatar a correr por entre as ruas e encontrar a tal Amelie, mas meu bom senso me impedia. O fundo da minha loucura ainda não havia chegado tão longe a ponto de meu desejo ultrapassar a medida sutil dos sonhos. Ainda não.

Ele saiu rindo-se ao desmascarar o sentido de meu sorriso. Ele havia descoberto meu choro secreto e percebia em mim a musica que uma vez cantou. – Ah, minha querida, ouça minha alma e cuida do meu choro. –  ele saiu cantando porta afora.

E eu estava sozinha com meus pensamentos. Ele se fora, deixando-me ainda mais sozinha do que eu jamais estivera anteriormente. Antes, eu podia confusamente sonhar tudo que eu desejava no mundo lá fora, agora, eu estava completamente só a espera de que ele voltasse.

Mas ele pouco voltou, doía-lhe o peito me ver definhar por sua causa e ele preferia a companhia de sua nova amada, não podia culpa-lo, nem eu conseguia ver-me naquele estado torpe.

Em sua última visita, eu o encarei como nunca antes o havia olhado e então... notei em seus olhos um lago profundo de sentimentalismo escondido. Aqueles olhos... aqueles olhos ardiam em minha alma e eu já não conseguia exercer controle sobre meus lábios que em vão ensaiavam um sorriso.

Ele o ignorou completamente e depositou flores amarelas ao lado de minha cama. Acaso eu era uma tia velha e doente a quem ele ia visitar só por educação e bons modos? Acaso eu estava velha e acabada? Não. Eu era ainda tão jovem quanto ele e tão bela quanto a outra. Porque então ele não me amava como a amou?

– Porque? – meus lábios disseram em um tom sussurrado. Mas já era tarde, ele saíra pela porta e não voltaria mais, eu bem sabia.

Em minha esperança por vê-lo, passei a espreitar a janela e lá estava ele toda tarde a se encontrar com ela. Via nos olhos de ambos uma reciprocidade sem par e quando ele tornou-se ausente até mesmo para ela, eu percebia nos gestos de cada um, as mensagens que deixavam nas pedras.

O tempo passou-se devagar e eu murchava como as rosas que ele passou a dar a ela com frequência. Suas visitas rareavam a praça, era bem verdade, mas eu sabia que eles costumavam se corresponder e passear por outros lugares. Eu sabia, porque os demônios da neurose sussurravam em meus ouvidos.

Eu estava só. E meu olhar se voltava sempre à janela, mesmo que no frio junho as pessoas pouco saíssem de sua casa. Sem perceber, as paginas amareladas do calendário chegaram ao dia dos namorados. A triste data que se mostrava para mim na janela.

– Eu lembrei de você todo esse tempo. – Ele falou para Amelie. Eu podia quase ouvir sua voz sussurrada através da leitura de lábios.

– Eu nunca esqueço de você – ela respondia.

Era noite e uma fina neve caia ao chão enfeitando a praça com sua imaculada face branca. A lua prateada, cheia, como se dissesse estar alegre ao assistir os dois amantes, para mim mostrava sua face fria e cheia de escarnio pela minha dor.

Um corvo e olhos negros me observava do prédio ao lado e fitei demoradamente seus diminutos olhos negros... olhos como os de Rafael... olhos como os olhos que eu desejava fitar eternamente.

Levada pelo meu desespero, abri a gaveta e retirei a arma. Uma bala, uma única bala para acabar com todo o amor daqueles dois. Eu macularia de vermelho a neve branca.

Assim, mirei da janela os dois que dançavam em meio a luz prateada e a felicidade. O casal se beijava, o corvo me observava e a lua ria lá fora. Minha dor tremeu diante do ferro frio.

Eu precisava atirar, eu precisava, mas, no entanto, me faltavam forças para tanto. Lentamente minha mão arrastou-se em direção aos demônios neuróticos que gritavam aos meus ouvidos.

Eu estava só e sentia muito medo. Eu ouvia o silencio da noite e tive ainda mais medo, enquanto até mesmo o corvo pareceu calar-me e observar meus movimentos tristes.

Havia um silêncio terrível no ar. Houve um estrondo terrível. O corvo voou, a lua manteve-se impassível e o casal cessou seu rodopiar para olhar em direção a janela que antes me servia de observatório. O silêncio imperou totalmente.

Ali, para onde eles olhavam, outrora eu estava sozinha.

Agora, eu já não mais estava.


 

Akasha

 

 

Feito fogo, o quartzo queimava as mãos suadas da Sacerdotisa incapaz de conter mais as lágrimas de dor que se desprendiam como pequenos receptáculos das partes mortas de sua alma.

Mas não havia dor física, era sua alma que se desgastava pouco a pouco e murchava como as flores cuja designação fora extirpada, o tempo passou e o amor não veio. O coração sacerdotal morria a cada instante e a cada lágrima, como se toda dor do mundo pudesse caber dentro de tão pequena gota d’água,

Podia, pois toda dor do mundo pode se esconder na tristeza. Toda tristeza do mundo pode caber num segundo de duvida. Toda duvida do mundo pode ser formulada por uma pergunta. E a pergunta era se ele a amava.

Ele, que era o príncipe dos não sentimentalistas, aquele que sentia, mas preocupava-se demais em não demonstrar tais sentimentos. Ele que era o possuidor de beleza maior que a de Apolo, o olhar mais triste que o olhar mais triste da pessoa mais triste dos reinos Austrais. Ele, que era o príncipe dos Hiperbóreos.

— Quem és Sacerdotisa para achar que alguém como ele amaria alguém como vós? Tu que é a escoria de nossa sociedade, tu que disseste mentiras sobre o Deus, tu que não venera Apolo como nós. Quem pensa que sois? Amor aqui é harmônico e perfeito, não causa tristeza, não deixa marcas incuráveis, não produzem lágrima e tu quebraste todas essas premissas. O que sentes não é amor, é simplesmente desejo. — Lhe disse Cristina em tempos remotos.

E Cristina, Cristina tinha toda autoridade para falar em nome do príncipe, porque era sua gêmea em alma e forma, porque era guardiã dos pensamentos dele, porque era amiga, confidente e amada, mas não sua esposa, porque hiperbóreos não se casam.

— Alem disso, claro que nunca o terás, posto que ele é belo como o sol e tu és tão sem sal e eclipsada quanto qualquer dessas humanas que habitam os reinos austrais,não te vestes no estilo próprio que te caberias como uma nobre. Como podes Anabele, ter abdicado de teu nome para se tornar uma Sacerdotisa? Como podes entregar-se de tal forma ao mar das emoções e se tornado sentimental? Como você ousa ter sentimentos, como? — Gritava enlouquecidamente a princesa, entre delírios e risadas histéricas, no fundo havia a inveja de não poder sentir abertamente e a necessidade de sentir-se superior.

Mas essas eram apenas lembranças de frases passadas e por mais que machucassem, nunca seriam revogadas, pois nem mesmo as princesas têm o poder de mudar aquilo que já disseram. Assim como nenhuma Sacerdotisa tem o dom de responder às ofensas que não responderam no passado.

Duvidas por tanto tempo rasgaram-lhe o peito que nenhum sentir vinha sem magoa, que nenhuma esperança vinha sem tristeza, que nenhuma lembrança vinha sem dor. E tudo era dor.

Os vitrais multicoloridos do Templo dos Deuses se monocromatizaram, dessa vez, não em resposta à tristeza, mas em luto pela desistência da vida que sua guardiã nutria pouco a pouco.

E ali estava o quartzo, rosa como amor e como a dor, coração pulsante de pedra mineral, envolvido pelo universo que era mão cuja ânsia era tocar a mão do ente amado, mas que não o tocara e agora jamais tocaria.

Lágrimas caiam feito meteoros enquanto, por osmose, todos os sentimentos, lembranças, promessas, cartas e tristezas passavam para a pedra e tornavam-se pedra rosea. A Sacerdotisa estava passo a passo separando-se de sua alma, palavra por palavra petrificando seu coração, sentimento por sentimento cada vez mais longe de toda dor que sentia pelo príncipe.

Talvez pouco a pouco a Sacerdotisa abdicava do seu posto para ser novamente um nome, um rotulo, um titulo que nada expressava sua real condição, pois era por isso que todas as sacerdotisas abdicavam de seus nomes, para se libertar das prisões impostas pela entificação.

— Em nome das estrelas Nortais, Áster, Espia, Ypsule, Ostara, e Ultar, eu abdico de minhas lembranças, do dia em que o príncipe me chamou de interessante, de bela de sensual, do dia em que eu o conheci e ele me disse que há muito desejava me conhecer e do fatídico dia em que eu abandonei a aristocracia para me tornar de fato uma sacerdotisa dos mistérios. Eu abdico em nome das estrelas minhas lembranças mais alegres.

E de uma vez sentiu todos esses dias e palavras corroerem a alma ao sair dela, como se toda a felicidade que a mantinha em pé, como se a pedra angular que a erguia fosse retirada e ela finalmente pudesse desabar no chão com sua tristeza. E desabou de fato, como uma estrela de prata nos últimos dias do mundo.

— Sob o julgo das estrelas Austrais, cujos nomes são incontáveis e inefáveis, eu me liberto de minhas memórias, do dia em que Cristina riu-se de minha beleza, do dia em que eu me vi caindo em desespero, desse exato momento em que eu desobrigo-me de ser eu mesma, do dia em que o príncipe olhou para Ariele, a mortal, no dia em que eu me tornei Sacerdotisa dos mistérios. Em nomes das inexprimíveis, eu liberto das minhas memórias mais tristes.

E ergueu-se novamente, como se toda sua história pudesse ser baseado em meros fatos sem sentimentos, como se uma vida sem alegrias ou tristezas pudesse ser realmente contada como vida, como se apenas a consciência racional dissesse que ela ainda existia, mas a sacerdotisa não acreditava nisso, apenas mentia para si mesma ao tentar crer em sua mentira.

— Eu era tristeza que vaga sozinha no escuro, eu era alegria capaz de entregar-se ao riso absoluto, ciúme esmaecido, segredos e mistérios inevitáveis, livro de mil histórias e lembranças infiéis e contrarias a mim mesma. Eu fui a complexidade de todo o sentimento e toda a poesia existente nas coisas que admirei e amei, eu era a doçura que perpassa a amargura da vida, a lágrima de emoção em meio a toda seriedade sóbria de meu nome. Eu era a Sacerdotisa dos Mistérios, aquilo que não sou mais. Pois eu sou um nome, eu sou — e parou por uns instantes para respirar antes de terminar de uma vez só consigo mesma.

— Anabele, o que você está fazendo? — gritou o príncipe cujos pés alcançavam a porta. Não podia permitir que a sacerdotisa abandonasse sua alma e todo sentimento dela por uma suposição boba de que ele não a queria. — Você não entende que o momento certo para nós está para chegar? Você não entende que mesmo que meu coração jamais correspondesse o seu, não valeria a pena abandonar todo o sentimento e a vida? Não desista, não ainda. Não desista de mim Sacerdotisa. — gritou quase chorando e esquecendo o protocolo dos Aristocratas, o únicos que sentiam em Hiperbórea e portanto, deveriam fingir serem os mais frios. — Não desista do seu amor por mim, Sacerdotisa.

— Anabele... — por um segundo a palavra quase morria na garganta, por um momento o coração saltou pela boca que exprimia alguma coisa, mas fora só por um segundo e no outro, toda dor e toda excitação se fora. — Meu nome é Anabele. — disse enquanto seus olhos fitavam inexpressivos quem outrora ansiavam mais que tudo.

O quartzo rosa caia, feito amor, na obscuridade do chão, tão frio quanto a face hiperbórea. E o próprio amor fora engolido pelo principio das trevas.


 

 

 

 

 

 

Lucífero

 

O mundo era jovem enquanto ele caminhava com seus milênios de velhice, sua luz iluminava parcialmente arvores do Éden. Muitos o tomariam depois como a serpente que convenceu Eva a comer o fruto proibido, mas ainda não havia fruto nessa ocasião, nem mesmo Eva.

O anjo caminhou lentamente sobre a relva, sentindo os aromas trazidos dos ventos que na época eram ainda mais fortes com sua jovialidade.

Porque fazer isso estrela da manhã? Eles perguntavam, mas o anjo sequer deu-se o trabalho de responder. Há muito ignorava também as verdadeiras estrelas que indagavam sobre o caminhar noturno de tal criatura.

E a criatura angelical era bela. Seus cabelos negros caiam pesadamente em suas sobrancelhas, alguns fios tocavam seu alvo rosto adolescente, acentuando sua leve expressão de sofrimento.

Ao longe, uma figura humana observava o que para ela seria um garoto de asas brancas. Seu coração batia intensamente em um misto de paixão, pena, desejo, amor. Porque os corações humanos são mais susceptíveis a beleza quando ela lhes parece triste. E ninguém é mais susceptível a tristeza angelical do que uma mulher.

Mas aquela de longos cabelos negros, tez morena e olhos amendoados não era uma simples mulher, seu nome seria conhecido por muitos séculos, junto com sua lenda, seu nome era Lilith.

– O que faz aqui? Teu lugar é com marido. – Disse o anjo, suficientemente alto para que ela ouvisse, mas apenas ela.

Maravilhada pela voz adolescente e musical, a jovem mulher caminhou em direção ao anjo. Nunca havia visto tal criatura, que parecia vir do céu, mas não era austera como Deus ou os anjos que havia visto.

– Não quero mais estar com meu marido. – Respondeu. – Mas não tenho para onde ir e então quando ele adormece, eu passeio pelo jardim. – Quem é você?

O anjo sorriu, há muito não ouvia alguém perguntar algo assim. Pois em todo lugar que ele fosse, todos os seres o reconheceriam, porque ele caiu do céu, expulso do paraíso por seu ímpeto de questionar o Pai.

 – Meu nome é Lúcifer.

– Aquele que se rebelou contra Deus...

A expressão de tristeza se acentuou no rosto de Lúcifer, ele não gostava de lembrar dos tempos em que vivera no céu, na cidade dourada. A dor ainda era nova e pungente. Talvez para aplacá-la ele estava ali, prestes a mudar o destino da criação mais importante de Deus.

– Não, não. Não é uma critica. É que eu estou pensando o que aconteceria comigo se resolvesse me revoltar, provavelmente ele me expulsaria do Éden.

– A não ser que você fuja por contra própria...

Um longínquo ruflar de asas foi ouvido pela Estrela da Manhã, tão ao longe que demoraria horas até chegar ao Éden, mas isso alertou Lúcifer da futura presença de seus inimigos. Era hora de concluir seu plano, antes que fosse tarde demais.

– Agora vá. – Continuou o Anjo. – Você não deve ficar mais aqui ao meu lado por muito tempo. Em breve os anjos do Pai virão me enfrentar e eu não posso me atrasar de forma alguma.

– Mas...

– Vá!

Lilith correu, mas apenas o suficiente para que o anjo não a percebesse escondida na relva, a curiosidade humana a corroia por dentro e ela precisava saber o que o inimigo de Deus fazia no centro de Sua grande obra.

Uma luz violácea iluminou o centro do paraíso, Lúcifer invocava poderes ancestrais, encantamentos incompreensíveis até mesmo para os magos humanos que surgiriam após os séculos. Porque aquele seria o momento em que toda magia da humanidade seria criada, o livre-arbítrio era inventado. Pelas mãos mágicas do portador da luz.

Por duas horas Lúcifer invocou a luz para dar forma ao seu plano e o ruflar de asas chegava cada vez mais perto, pronto para impedi-lo.

Do chão a relva começou a formar-se mais espessa até que raízes foram surgindo. O caule foi surgindo através da luz violeta e tomando uma forma cada vez mais forte e indestrutível. Galhos despontaram lentamente, um por um. Até que árvore do conhecimento do bem e do mal, a Daath, estivesse plenamente pronta. A não ser pelos seus fatídicos frutos.

A luz diminuiu de intensidade até sumir completamente na noite, o sofrimento do anjo acentuou-se mais ainda num esgar de cansaço físico e mental. Mas ainda não era o fim, tão somente a árvore não daria para o homem o conhecimento necessário para a ascensão.

– Pare ai! Perverso. – Disse uma voz que vagou por todo o Éden. – Porque nos toma por ignorantes? Não vês que Deus tudo percebe em seus domínios? Não vê que sua erva daninha não florecerá, nem dará frutos? Quem tu pensas que é ó Querubim resplandecente para nos afrontar dessa maneira?

Uma luz mais brilhante que o dia desceu do céu, seguida de dois orbes iluminados. Os três maiores arcanjos desciam do céu para mais uma vez enfrentar o opositor dos planos divinos.

– Tu caíste justamente por ser contra a criação das criaturas de barro, porque agora nos enfrenta desta maneira suicida para ajudá-los? – Perguntou o mais resplandecente, Miguel. – Porque dar chama da tua luz ao homem, Prometeu?

– Porque é o único jeito deles terem algum caminho e visão à sua frente. Porque é a única maneira deles decidirem o próprio destino.

– Porque é a única maneira de você usar a alma que a Origem criou para elevar-se novamente aos Céus e lutar pelo trono da cidade dourada. – completou Rafael.

Miguel parecia nervoso por detrás de seus olhos azuis, sua mão agarrava-se ao cabo de sua espada de fogo, temendo qualquer ataque direto de seu inimigo. Já havia enfrentado Lúcifer uma vez e conhecia o poder do anjo a sua frente. – Não era nada que desejasse enfrentar de novo.

– Renda-se Querubim. Vá-te daqui e nós não o perseguiremos.

Lúcifer permitiu-se um leve sorriso de sarcasmo. – que aos olhos de Lilith o tornou ainda mais belo. – Estava perto demais para desistir agora e ele não temia a morte, pois era justamente o seu auto-sacrificio que terminaria sua obra prima.

– Renda-se...

Os olhos de Miguel e Lúcifer se encontraram, havia ali a rivalidade ancestral e o egocentrismo de ambos lutando em silêncio. Havia a inveja, o expatriado desejava o poder político do arcanjo e este por sua vez desejava a inteligência e sabedoria do expatriado. Havia o ódio, a magoa, a raiva e todos os sentimentos que um anjo era capaz de nutrir.

O arcanjo adiantou-se e puxou sua espada contra o querubim. O fogo azulado trepidou e converteu-se em labaredas altas e vorazes, atravessando o corpo de Lúcifer e a árvore que ele criou.

Ainda escondida, Lilith deixava-se derramar lágrimas no silêncio vazio de seu sofrimento. Não conseguia acreditar que o anjo com quem conversara agora jazia ali derrotado, sem sequer defender-se de maneira adequada. Como? Por quê?

Passos caminharam até seu lado, outro ser desejava assistir a contenda. O homem ao seu lado parecia também não entender a atitude de Lúcifer. Samael, o general dos demônios, estava ainda mais perplexo e desolado do que Lilith.

Pronunciando suas palavras de poder, Lúcifer novamente acendeu a luz violácea ao seu redor, que lentamente tomavam um tom púrpuro.

– Por quê? – O arcanjo era o mais perplexo de todos ali, não esperava que Lúcifer se entregasse assim tão facilmente.

– Você estaria disposto a entregar-se por um ideal? É isso que eu estou fazendo. Meu corpo se tornará a semente do conhecimento humano e minha luz, minha sabedoria será encontrada por aquele que a merecer durante o crepúsculo da humanidade. Eu serei a estrela que guiará as almas contra ti e o céu, Miguel, minha vingança será levantada contra a tirania.

Uma explosão púrpura invadiu todo o jardim do Éden e um fogo consumiu o corpo de Lúcifer junto a sua árvore que em vez de queimar tomou ainda mais forma. De súbito, as chamas converteram-se em suculentos frutos azul-eletrico e a espada de Miguel caiu limpa ao chão.

O príncipe dos arcanjos permanecia ali perplexo olhando para a imponente árvore a sua frente, aquele poder, aquela chama de magia não poderia ser dissipado, a árvore reinaria bela e única no centro do paraíso. A criação estava a um passo de ser arruinada.

– Não se preocupe, Irmão. – Falou Gabriel diante da preocupação de seu príncipe. – Lúcifer não conseguirá seu intento, o homem nunca irá comer esse fruto, pois nós ordenaremos que não o faça e por medo e temor, ele não o fará.

– Tem razão irmão, sem Lúcifer para convencer o homem, quem o convencerá? O homem não comerá desse fruto. – Profetizou o arcanjo.

Mas sua profecia se provou errada, porque a serpente do Éden agora fugia junto a Samael para as terras de Nod, onde arquitetaria sua vingança contra toda a humanidade. Lilith vira a luz da Estrela e agora se libertaria da submissão.

E com ela, o mundo conhecia a escolha.

 

 

 

Angelical

 

Morfeu derramava sua benção sobre o garoto, mas este relutava em cair no profundo sono dos inocentes. Precisava vestir-se para o recital da igreja e apesar de seus olhos não mais o obedecerem, ele não decepcionaria sua mãe.

As vestes de anjo caíram bem sob o corpo esguio de Henrique e as diminutas asas brancas coladas à túnica azul de algodão davam ao conjunto um ar angelical de contrastes e luz.

– Essa roupa caiu perfeitamente em ti. – Uma estranha voz infantil tomou o quarto, deixando o garoto sobressaltado, não havia ninguém ali além dele.

– Quem é você?

– Isso não interessa. – Disse o garoto dando de ombros, tinha a mesma idade de Henrique, vestia igualmente a roupa do coral, mas sua túnica, vermelha como fogo, criava um contraste ainda maior com o branco das asas. – Vamos Brincar?

A beleza do garoto era extrema, e se Henrique, no auge dos seus oito anos, conhecesse os significados intrínsecos de desejo, veria naqueles olhos quentes, uma volúpia e artifício incondizentes com a idade de seu novo amigo.

– Não dá! O coral vai já começar e eu não posso me atrasar.

– Ah! A gente brinca lá, eu vou cantar no coral também.

– Então dá certo, porque você não vem comigo, ai a gente conversa no caminho. Ah! Eu sou o Rick, qual teu nome?

– Prazer Henrique, pode me chamar de Luh.

Débora, a mãe de Henrique, começou a gritar loucamente. – Como sempre fazia quando estava apressada. – Queria ver o filho brilhar com sua voz, acima de todos os tenores.

Junto com Luh, Henrique sentava no banco de trás do Sedan preto, mal podia esperar para começar a cantar e estava tão extasiado que não percebeu o volume estranho e pontiagudo abaixo da túnica de seu amigo.

– Mãe! Esse é o Luh.

– Tabom, tabom Henrique. Senta ai e fica quietinho. – Débora não podia ver o novo amigo de seu filho, mas não se importou muito, todas as crianças têm amigos invisíveis nessa idade.

A Matriz de Santa Bárbara estava ricamente decorada com adornos da noite de natal. A opulência do templo de ouro e mármore se mostrava tão exorbitante que seus umbrais permitiam a passagem de algo como Luh.

– Eu quero te mostrar uma coisa.

Luh sorria mostrando seus alvos dentes escarnecedores. Era hora de mostrar para que veio e não falharia em seu intento. Calmamente, para não assustar seu mais novo amigo, mostrou-lhe a faca que a mãe de Henrique usou mais cedo para descamar o peixe da ceia de natal.

– Luh, o que você ta fazendo com isso? Se minha mãe pegar você ela nos mata.

– Ela não vai me pegar, no carro ela nem sequer me viu. Olha, nós vamos brincar de videogame. Sabe aquele jogo que o cara pega a faca e procura o rubi negro nos inimigos?

– Sei, “In Search of Deadly Jewel”. Mas a gente não pode fazer isso! Essa faca machuca, não é como no jogo!

– É sim! Você tá é com medo de perder de mim, vamos, eu trouxe uma faca pra mim também, vamos brincar Rick, vamos brincar... – Os olhos incandescentes do anjo vestido de rubro, logo tomaram conta do pequeno corpo de Rick, sim, ele ia brincar, mas só um pouquinho.

Um pouco mais longe, o Pe. Antonio começava o último ensaio, quando avistou Henrique vindo em sua direção, falando sozinho, com o olhar matreiro e infantil de uma criança quando comete algum malfeito.

– Você está atrasado! Vamos sente-se ai no seu lugar e vamos começar o ensaio final.

– Mas Padre! Eu tava procurando o Rubi negro, você não viu um?

– Vi sim. – Riu o padre da graça do inocente garoto. Expressando ainda mais suas rugas, marcas de tantos sorrisos passados. – Eu tenho uma aqui, se você cantar direitinho, eu te dou mais tarde.

– Eu quero agora! – A face de Henrique passou do mais lívido sorriso a mais cruel expressão, sem oferecer chance de resistência ele dilacerou o corpo esquálido e curvado de Antonio, em meio aos gritos assustados das crianças.

 Um a um, os gritos foram silenciados pela busca por um rubi inexistente, no jogo sangrento em que Henrique entrara. Ao seu lado, o jovem Luh também marcava inúmeros pontos, mas suas asas continuavam limpas, como se nenhuma gota de sangue recaísse sobre ele.

Alguns adultos, atraídos pelos gritos, entraram correndo no salão paroquial, para se depararem com uma visão desoladora, seus filhos, sobrinhos e irmãos. Estendidos, dilacerados e mortos, mas não viram o assassino.

Por detrás deles, os dois garotos empunharam suas facas, acertando-os pelas costas, um queria achar o Rubi e o outro apenas brincar.

Não demorou muito até que os demais adultos estranhassem a demora do coral.

 

***

– Esses garotos já estão quinze minutos atrasados, será que está tudo bem?

– Está Débora, já já começa, você não se lembra do último natal? Quase que não tem coral com tanta demora. Está tudo bem, pode acreditar em mim.

Mas nada estava realmente bem, o coração da mãe pulsava em sensações estranhas e pulou de espanto quando as pesadas portas da igreja se fecharam assombrosamente. Estavam presos ali, ela sabia.

De dentro do Salão Paroquial, uma criança, irreconhecível de tanto sangue espalhado pelo rosto, saia segurando uma faca. A imagem chocou a todos.

Henrique era certamente mais fraco que qualquer homem ou mulher ali, mas a selvageria com que ele se lançou em direção as pessoas, assustou suas vitimas a tal ponto, que ninguém tentou tirar-lhe a faca.

A esmo ele lançou golpes, furando olhos, arrancado vísceras, talhando pescoços. O liquido rubro espalhava-se manchando sua roupa e suas asas outrora brancas, ele era um diminuto anjo da morte feito de sangue e apenas isso.

Débora permanecia horrorizada com a selvageria do garoto e junto a dezenas de pessoas passou a esmurrar as portas da igreja esperando que um milagre abrisse aquelas portas, mas ele não veio, e se viesse ela provavelmente não sairia. Estava preocupada com o paradeiro de seu filho.

Ao seu lado, pessoas começavam a cair, os últimos sobreviventes de um massacre cruel e hediondo cometido por aquele pequeno anjo. Gritos invadiram seus ouvidos, assim como as lágrimas tomaram seus olhos, para depois se jogarem no mármore gelado.

Quando por fim, nenhum outro grito podia ser ouvido e todas as lágrimas cessaram, ela fechou os olhos, a espera do golpe mortal que a mataria.

– Mãe? – Era a voz de Henrique, seu filho, e ela vinha daquele assassino hediondo.

– Rick, o que você fez? O que você está fazendo! Você não pode... Ah! Não, meu filhinho não! – as lágrimas teimavam em cair, mas apesar de querer bater em seu filho apenas o abraçou quando este deixou cair à faca que segurava.

Passo ante passo, Luh caminhava limpo, belo e mortal. Jogando sua faca de uma mão a outra. Sem jamais alterar sua expressão serena, ele encarou seu mais novo amigo e sentiu o medo advindo da pequena criança. Sem hesitar, a faca em sua mão carregou consigo a vida de Débora.

– Que pena Henrique, Game Over, eu ganhei! – Ria Luh, em sua voz envelhecida.

– Mãe, mãe! – Henrique chorou até perceber que sua mãe não podia mais ouvi-lo e que ele realmente perdera o jogo que tanto se empenhara em ganhar. – Luh! Porque você fez isso?

O eco da igreja o respondeu. “Porque você isso?...” A própria voz de Henrique reverberava nas paredes do templo ironicamente. Ele percebeu-se só em meio a tantos corpos e vozes silenciadas.

Atrás de si, um Jesus crucificado o observava com seus olhos tristes, como se chorasse mais uma vez pelo sangue derramado, que dessa vez, não era o dele.

Calêndula

 

Mal-me-quer, bem-me-quer, e se ele simplesmente não quiser? Adriana passava por sobre a rua ladrilhada de brilhantes e o amarelo das calêndulas manchava o chão de incerteza. Porque ir em direção a Solidão?

Tocava o poeta, cantava o sabiá, chorava o noivo à espera da noite, quando os apressados passos cruzassem o portão. Cada um a seu modo, a observava ir embora lentamente em seus passos comedidos.

Mas não havia em Adriana poesia ou dor de não casar. Havia apenas o amarelar do bem me quer por não querer. Da incerteza de não saber se ele a amava. Não quis o noivo, esqueceu do poeta, abandonou o sabiá.

Do alto da casa verde, Rômulo a olhava como Nero, estava enlouquecido e o amarelar das calêndulas se misturava ao bailar das águas da tristeza. O rubro das rosas se desmanchava no chão de arenito e calcário, para então cair da calçada em direção aos diamantes que ele ladrilhou na rua dela.

No verde avermelhado de suas lembranças, ele viu cair em si a ciranda da vida, enquanto Der Reigen tocava fazendo-o ouvir o doce murmúrio da voz de sua amada cantando o amargo gritar do adeus.

– O amor de que tu me tinhas era de vidro e se quebrou. – Ela murmurava em sua voz enervada, não parecia preocupar-se em tornar vidro o coração dele.

– Quem gosta de você sou eu. – Ele dizia quebrando-se.

Quem gosta dela sou eu, ele repetia para si e para o mundo de casas coloridas. Mas quem o ouviria? O sabiá em sua árvore decerto o ignorava, enquanto as folhas de outono se misturavam as calêndulas ao chão.

Adriana continuava lentamente seu caminhar de fim de tarde, afinal, apenas quando o sol se põe os portões de Solidão se abrem. Não havia pressa em seu caminhar sereno e na verdade evitava chegar à árvore do sabiá ou a casa do poeta, afinal, já havia se despedido do noivo, mas ainda não dos dois.

– Turuti, turuti, turuti, é pra ti que ele canta, é por ti que ele chora. – Cantava alheio ao mundo, o autista sabiá.

Por um momento, a jovem pensou em continuar sem responder, mas como podia deixar de dizer adeus a tão bela ave que tanto cantou em sua janela? Como não dizer adeus às lembranças felizes de sua vida que nunca mais veria em solidão?

– Quem canta por mim? – Ela sorriu ao parar um instante.

– Turutiri, turutiri. Porque sorri se vai embora?

– Para que chorar diante da tristeza? Ainda é dia e o céu está manchado de calêndulas, assim como o chão.

Incerteza. Ele a ama ou ele não a ama? O Céu falava com os anjos e continuava incerto e assim seria enquanto o dia durasse. Apenas a noite trás as certezas que queremos evitar.

Mas o ele do sabiá e o ele dela, eram tão diferentes quanto uma estrela pode ser da outra. Um era o poeta do fim da rua e o outro... O outro era o anjo da monotonia, o senhor da casa preta e branca.

– Turutiri, turutiri. Porque vai embora?

Caiam as folhas como se fossem lágrimas. Sabiá não chora, poetas sofrem e noivos serpenteiam rosas e diamantes pelo chão. Adriana não sabia o que dizer, como responder aquilo que não tem resposta?

Caiam lágrimas como se fossem folhas, enquanto o tapete amarelo e vermelho se desprendia das cores do mundo para bailar ao som do silêncio. Quebrando o coração de muitos ao não quebrar a voz que permeia o vácuo. Ela pisou nas incertezas e nas lágrimas e continuou calada pela rua.

Um embargo chegou a sua garganta, lá estava o final da rua ao final do dia. A última casa tão perto de si. O poeta, como sempre segurava o violão e cantava com seus olhos tristes, a canção que cantou desde quando o chão foi ladrilhado.

Nos olhos dela, a lembrança do dia em que partira o coração do poeta ao receber das mãos de Rômulo o anel de noivado. Mas o anel não rodeava seu dedo e sim a vila. Os diamantes brilhavam sobre a luz do sol cada vez que ela passava enquanto uma triste canção tentava convocar a chuva e apagar o brilho.

Nos olhos do poeta, apenas a tristeza. Maior ainda do que fora outrora, porque Adriana caminharia em direção a um lugar sem cores, a monotonia de Solidão. Como ela podia querer partir dali?

A distância entre ele e ela se fazia pouca, mas o amor faz com que logo ali seja tão longe e tão longe seja logo ali. Para Adriana foi como se o sol se arrastasse junto aos seus pés, mas para Breno, o poeta, o sol corria como as areias do tempo e o amargo amarelo das calêndulas.

– Se essa rua, se essa rua fosse minha. Eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pro meu, só pro meu amor passar. – E o amor estava passando, atropelando tudo e a todos na rua de brilhantes, em busca apenas do caminho para Solidão.

Adriana sorriu diante da tristeza. Porque dizer adeus se os levaria na alma? Mas ainda teria alma quando chegasse ao seu destino? Muita coisa muda em Solidão. Muita coisa é muda em Solidão.

Calaria também sua alma quando chegasse à hora? Incerteza.

Mas o amarelo se rompeu em sons e na voz doce que trazia palavras amargas. Pela primeira vez a canção do poeta ouviria a continuação feita pela musa. Seria uma primeira última vez.

– Nessa rua, nessa rua tem um bosque, que se chama, que se chama Solidão...

Envolvido pela voz da musa, o poeta em silêncio chorava sem derramar lágrimas. Todas as águas do mundo pareciam estar envolvidas dentro do rio que serpenteava em sua alma, e de fato, seu espírito já não estava mais inundado de tristeza, ele era a própria que escorria pelas notas que tocava.

– Porque decide ir embora? Porque se jogar diante da solidão de um amor tão incerto quanto às calêndulas que se joga ao chão?

– A canção foi cantada meu caro. Porque não dizer adeus se o próprio Deus é que decide nossos destinos?

– Que Deus é esse que te escolhe por longe de mim? Que Deus é esse que nos enche de incertezas? Que Deus é esse que mancha nosso sangue de amarelo?

– Não existem incertezas de fato. Na verdade, temos ambos a total certeza que meu caminhar em solidão poderá dar totalmente errado. Mas qual é a graça de viver sem riscos?

– Às vezes sem saber o porquê das coisas, caminhamos em direção as certezas que fingimos ser incertas. Apenas pelo desejo de ter aquilo que desejamos. E quão triste é essa certeza quando percebemos que perdemos quem desejamos, porque este alguém não nos deseja igual.

Calou-se por fim o poeta no cantarolar das canções mudas de notas calendulares, o amarelo ao seu redor, pareceu ainda mais amarelo do que o caminho das incertezas certas de Adriana.

Ele também dedilhava as respostas que podia tirar das flores, mas ao contrario dela, ele ficaria ali. Fincado eternamente por sobre os ladrilhos que desejava ter trilhado. Aqueles cheio de pedrinhas de brilhantes, que Rômulo mandara fazer para a amada.

– Se essa rua, se essa rua fosse minha. Eu mandava, eu mandava ladrilhar. Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar...

Ela foi passando em direção ao final da rua. Os portões impassivelmente fechados a encaravam com ar de certeza. Ali era o final das casas coloridas e o umbral a caminho da monotonia. Logo a sua frente, estava a solidão.

No inicio do caminho, Rômulo ainda despetalava as rosas em vermelho sangue, enquanto seu rubro esgar caia junto a sua vida na sacada. Seu caminho era também para o bosque, mas para um bosque ainda mais solitário do que Solidão.

O sabia continuou cantando sua marcha triste e fúnebre, trazendo consigo a melodia que acompanhava a voz de Breno, estavam juntos nessa empreitada enquanto o sol caia lentamente.

Os portões impassíveis passaram a encarar Adriana enquanto esta também os observava. As incertezas cessaram ali quando finalmente o sol chegou a seu ângulo final e os indiferentes escancararam-se para a incerteza.

Já pleno de certezas em sua casa amarela, o poeta cantava sua musica enquanto manchava o chão de calêndulas que eram incapazes de defender-se da antiga ladainha.

Mal-me-quer, Bem-me-quer. Ela simplesmente não me quer.

 

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